domingo, 17 de abril de 2011
Ainda somos camaradas?
Isso na gramática, na literatura, na música, na poesia. Em política, não. Especialmente em partidos políticos, também não. Aqui uma palavra tem mais que significados: possuem emblemas e são emuladoras de condutas ideológicas. Portanto, quando se trata de política e ideologia convém ter o máximo de cuidado, especialmente ao ser proferida por um líder. Quando algumas palavras são empregadas na condução política elas podem mostrar como símbolos de que a prática teve outro direcionamento.
Minha intenção com este texto é provocar um debate acerca do novo tratamento que vem sendo introduzido –sub-repticiamente, a meu ver – no seio partidário. Isso me incomoda e tem incomodado a muitos camaradas com os quais venho trocando impressões a respeito.
Tenho como sintomático que junto com essa nova forma de tratamento, que lembra os petistas, tenha havido alguns encaminhamentos coincidentes nos últimos anos. Uma delas foi a decisão do último congresso de introduzir o voto secreto para escolhas das instâncias partidárias. Desprezou-se com isso a prática da honestidade política, com a exposição de posições claras e definidas sobre cada membro-candidato, com a crítica e a autocrítica, com o debate franco, aberto. Jogou-se fora o exercício da camaradagem, em suma.
A nossa anterior forma de escolha das direções partidárias era uma de nossas diferenças políticas ante as práticas burguesas e oportunistas. Era uma das marcas do fazer política com honestidade, sem os vícios maléficos da prática dos partidos tradicionais da política tradicional, antidemocrática. Pretendeu-se ampliar a democracia partidária, mas na prática o que se assiste é o trilhar de um caminho perigoso.
Um exemplo: participei da última conferência regional de Mato Grosso, onde morei, em Cuiabá, até outubro de 2010. O que se viu lá foram manipulação da lista de candidatos, articulações, barganhas e concessões inaceitáveis para um partido político como o nosso. Alguns que desejavam ansiosamente ocupar postos na direção se lançaram a negociações vergonhosas. Por outro lado, municípios que conseguiram mobilizar bancadas maiores, com delegações compostas com recém-filiados eleitos pelo mesmo critério em suas conferências municipais, jogaram mais peso na conferência estadual e foram alvos dessas articulações e barganhas. O que viram esses novos filiados não foi nada diferente do que muitos deles assistiam em seus partidos de origem, alguns oriundos do espectro da direita ou oportunistas de partidos de esquerda (aliás, abandonamos por completo os critérios de aquisição partidária).
Que tipo de educação está dando para esses novos militantes?
Aqui no Distrito Federal, onde nasci e moro atualmente, muitos pensam no partido como um trampolim para cargos nas esferas federal e distrital. Quando cheguei e busquei iniciar minha militância em Taguatinga, cidade-satélite onde resido e onde vivem membros de minha família desde antes da inauguração de Brasília, comecei contatos com vários militantes de lá. Insistia que tínhamos que nos organizar e a resposta que ouvi de muitos, em geral novos filiados, era que se assim o fizéssemos teríamos mais força para conquistar cargos no governo.
Por outro lado estranhei o fato de ter sido ignorado e até desprezado por alguns militantes antigos e membros da direção. Depois descobri que havia o temor de que eu ocupasse o lugar deles. Parece uma bobagem, mas foi isso que ouvi da quase unanimidade das pessoas com as quais me queixei. Quer dizer, antes um novo militante que chegasse com vontade de ajudar a organizar o partido era saudado com alegria e entusiasmo. Hoje ele é visto como concorrente. Como um intruso em seu feudo político.
Outro exemplo absurdo. Quando cheguei há sete meses fui à sede do partido para conhecer e me apresentar aos camaradas. Como sou jornalista me propus ajudar na área de comunicação do partido. O camarada que me atendeu, que é da direção de uma das cidades-satélite, não entendeu nada e mandou-meeu deixar o currículo, pois se tivesse algum deputado ou senador do partido precisando de jornalista ou se tivesse alguma vaga no governo Agnelo ou no governo Dilma me chamariam. Ora, eu estava ali me colocando como militante e não procurando emprego! Quando voltei para Brasília vim com emprego e sou remunerado o suficiente para me manter e a minha família. Depois descobri que essa era a rotina da sede do PC do B: receber diariamente dezenas de pessoas pedindo emprego. Era novembro de 2010, Dilma e Agnelo tinham acabado de vencer no segundo turno e os nossos novos filiados e até antigos militantes estavam todos afoitos, enlouquecidos em busca de uma boquinha nos governos federal e distrital.
Que tipo de educação estamos dando para nossa militância?
Aliás, onde está a nossa militância em Brasília? Não a temos organizada. O partido no Distrito Federal não tem organização nenhuma. Pelo menos do tipo leninista que aprendemos e defendemos. Ou teremos que também abandonar esse tipo de organização para abraçarmos a outra forma que leva muitos a só desejar cargos nos governos e se apegar às direções?
Expressei minha preocupação a um antigo militante partidário, que foi parlamentar e membro do Comitê Central. A sua resposta foi tão desanimadora como assustadora: “Sabe aqueles bancos que não têm agências para atender as pessoas? São chamados de ‘bancos aéreos’, que ficam nos andares superiores dos edifícios e só cuidam de investimentos? Então, o PC do B aqui é assim. Não precisa de bases”. Inacreditável, mas foi o que o camarada me respondeu.
O nosso partido está se conduzindo por um fisiologismo puro e simples. É cruel a constatação, mas só não vê quem não quer. O documento que conclama o Encontro sobre Questões do Partido, trata, a meu ver, eufemisticamente desse tema. È certo que tais preocupações ocupam o Comitê Central, em especial a Secretaria de Organização. A iniciativa é de extrema importância para a organização partidária. Mas penso que esse debate tem que ser mais aberto.
É sintomático, por exemplo, a prática sempre recorrente dentro de nosso partido em relação às alianças políticas e as negociações de cargos. É lícito exigir cargos numa negociação política? Sim, é! Somos um partido político, uma força política e se estamos nessa atuação institucional é legítimo termos a responsabilidade por também governar. Mas isso não pode ser a única finalidade em nossa prática política cotidiana.
Acredito que todos esses direcionamentos que o PC do B vem adquirindo não contribuem para a construção do novo homem que tanto defendemos. Ou não defendemos mais isso?
É nesse bojo que vem a insistência de alguns camaradas, infelizmente do Comitê Central, em trocar o nosso tratamento para “companheiros e companheiras”
Quando os reformistas em 1961 acabaram com o Partido Comunista do Brasil e criaram o Partido Comunista Brasileiro, que significado adquiriu a palavra “brasileiro” aí? Ela foi o emblema das novas posturas políticas e ideológicas dos antigos camaradas. Se não o fosse, nossos verdadeiros camaradas não teriam reorganizado o Partido Comunista do Brasil em 1962, resgatando o “do Brasil”. Parece simples? Mas seria conveniente observar toda a simbologia do resgate desse nome. Quando a Ação Popular teve que incorporar a composta “marxista-leninista” em seu nome, que significado teve esse novo nome na gloriosa organização que viria mais tarde se incorporar ao PC do B em 1972?
Quando deixamos de ser camaradas e passamos a ser “companheiros”, como Lula chama seus colegas de partido e até o grande empresariado com o qual se articulou ou não em seu governo, que significado tem isso? É uma bobagem? É algo subjetivo? É saudosismos dos que, como eu, ingressaram no partido ainda no final da década de 70?
Penso que, mais que a questão semântica trata-se uma inflexão que abriga uma estratégia que ainda não entendi e por ainda não entender fico imaginando ser uma nova conduta política e ideológica. E, o mais grave, uma nova orientação que não está sendo discutida abertamente dentro do partido. E isso é desonesto para com o conjunto da militância. É, em suma, um desvio ideológico e um emblema dos métodos de direção que transparece no cotidiano partidário.
Se continuarmos assim, logo deixaremos de ser o “Partido do Proletariado” e passaremos a ser o “Partido dos Trabalhadores”. Do ponto de vista da semântica não há problema nenhum.
João Negrão, militante do PC do B
terça-feira, 12 de abril de 2011
GUERRILHA DO ARAGUAIA:A ATUALIDADE DA UNIÃO PELA LIBERDADE E PELOS DIREITOS DO POVO
O dia 12 de abril é dedicado a um episódio da história brasileira pouco divulgada: A Guerrilha do Araguaia.
Movimento armado que ocorre da necessidade de se enfrentar a ditadura militar, a Guerrilha teve lugar no sul do Pará e na região do Bico do Papagaio (então GO), entre os anos de 1967, quando começa a se organizar e, 1974 quando se finda.
Adalberto Monteiro, no Prefácio da 4ª Edição de “Guerrilha do Araguaia – Uma epopéia pela liberdade” ressalta que “Na história do Brasil, os oprimidos, na maioria das batalhas que travaram, tiveram que empreendê-las duas vezes – a primeira, para protagonizar a resistência, a luta, a conquista, o fato histórico em si; a segunda, para divulgá-lo, fazê-lo reconhecido oficialmente e conhecido do conjunto da nação”. E os últimos anos têm sido destinados a sua divulgação, ao reconhecimento oficial – principalmente com a abertura de seus arquivos – do que reivindicavam os heróis que ali tombaram.
Chama minha atenção, entre os diversos documentos publicizados, a “Proclamação da União pela Liberdade e pelos Direitos do Povo – ULDP”. Apesar do tempo decorrido, verifico, ainda é um documento atual e pertinente para quem, como nós, vivemos no Centro-Oeste brasileiro, num estado – Mato Grosso – que ainda que se diga rico, sofre, contraditoriamente, com o atraso e problemas estruturais.
De forma sucinta, os Guerrilheiros do Araguaia manifestavam as dificuldades enfrentadas pelo povo pobre que vivia no interior do país, no norte e nordeste, em regiões como o Pará, Goiás e Mato Grosso que, viviam na ignorância e no abandono.
A terra estava concentrada nas mãos de uma minoria; os camponeses, quando não expulsos de sua terra, labutavam ao lado de mulher e filhos sem resultados suficientes para atender as necessidades mínimas e, se conseguissem uma boa safra, não tinham como transportá-la; essa situação era agravada pelas enfermidades, uma vez que não havia médicos, medicamentos e, a alimentação era precária; não havia escolas, professores e, poucas pessoas sabiam ler ou escrever; os impostos eram exorbitantes e não retornavam como serviços, até porque, as prefeituras do interior não possuíam dinheiro ou autonomia; a falta de empregos e perspectivas levava as pessoas a abandonarem as pequenas cidades em busca de trabalho; a violência e arbitrariedades já presentes na vida desse povo se intensificam com a ditadura militar.
Esse quadro levou à seguinte questão: “Que deseja o homem do interior?” Respondiam: Terra para trabalhar e título de propriedade de sua posse; Facilidade para deslocamento da produção através de diferentes meios de transporte e financiamento; Proteção à mão-de-obra dos que trabalham nos castanhais, na extração da madeira ou nas grandes fazendas; Regulamentação das atividades dos garimpeiros; Redução de impostos que recaem sobre o trabalho da terra e sobre o pequeno comércio; Assistência médica por meio de postos instalados em zonas e distritos; Criação de escolas nos povoados; Fim da arbitrariedade da polícia contra o povo; Proteção à mulher, ajuda à maternidade; Trabalho, instrução e educação física para a juventude, ajuda à criação de clubes, centros recreativos e culturais; Respeito a todos os religiosos; Liberdade para reunir-se, discutir seus problemas, criticar autoridades, exigir seus direitos, organizar associações, eleger, sem pressões seus representantes.
Militarmente a Guerrilha fracassou, mas deixou ensinamentos. Mais de quatro décadas depois, em que pese as profundas transformações vividas pela sociedade brasileira, com o fim da ditadura militar e a redemocratização do país, a ofensiva neoliberal e a experiência de 08 anos de um governo popular, a união pela liberdade e pelos direitos do povo continua sendo uma necessidade, pelo menos em Mato Grosso.
Unir o povo e os trabalhadores desse estado (lavradores, vaqueiros, garimpeiros, peões, pequenos e médios comerciantes, juventude, homens e mulheres, “todos que querem o progresso da região e a felicidade de seus habitantes”) em torno de reivindicações como: emprego de parte dos impostos arrecadados para o desenvolvimento das cidades; elaboração de planos de urbanização e desenvolvimento em todas as cidades, com construção de estradas, pavimentação de ruas, instalação de luz e água, serviços médicos, manutenção de escolas, construção de casas; defesa da agricultura familiar e da terra indígena com respeito a seus hábitos e costumes; obrigação de reflorestamento; apoio a iniciativas de caráter progressista, à pequena e média indústria e ao artesanato e a criação de postos efetivos de trabalho não é saudosismo ou algo já superado. É o que está colocado, ontem e hoje, para um estado que pretende próspero.
Marilane Costa – Mestre em Educação; Professora do IFMT – Integrante do Grupo de Pesquisa As vicissitudes da Sociedade Brasileira (IFMT/UFMT/UNEMAT); Membro da Direção Estadual do PCdoB.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
POR UMA CUIABÁ PRÓSPERA, BELA E HUMANA
Inspirada na Revista Princípios, edição nº 97, de agosto de 2008, que estampava em sua capa “As cidades podem vencer”, numa alusão não só a Carlos Drummond de Andrade, mas ao debate que se anunciava em seu editorial: “Um país forte se ergue em cidades prósperas, belas e humanas”, resolvi refletir sobre a cidade de Cuiabá a partir dos artigos e autores ali constantes que, sob diversos aspectos, defendem a necessidade de uma reforma urbana que considere: a relação entre a cidade e o campo; a história da formação da cidade e da propriedade privada; a valorização do espaço público e a habitação; o transporte público coletivo como fator de democratização dos benefícios urbanos; a escassez de água potável; a valorização do planejamento e do urbanismo em médio e longo prazo.
Traduzir minha inspiração em uma contribuição pareceu-me fácil quando pensei em todos os aspectos que me seduziram nessa cidade: sua gente, sua cultura, seu calor, suas águas, a capital com jeito de interior. Mas, extremamente difícil quando me lembro da irritação que sinto quando utilizo o transporte coletivo, sempre lotado; do lixo que se acumula na porta de meu prédio; dos buracos nas ruas; da gradativa diluição da cultura cuiabana em detrimento da valorização de uma cultura para o povo e não do povo; da falta de saneamento básico; do pouco investimento em educação e do caos na saúde. Mais difícil ainda, ao refletir na perspectiva dos milhares de trabalhadores que habitam a periferia dessa cidade. Ali a situação é de completo abandono.
Penso que num momento em que discutimos um novo projeto nacional de desenvolvimento, Cuiabá não pode mais ficar aprisionada a um modelo de desenvolvimento urbano que “privou as faixas de menor renda de condições básicas de urbanidade e de inserção efetiva à cidade”.
Tenho acompanhado, através dos meios de comunicação, os dilemas e problemas em torno das ações e dos preparativos para a Copa de 2014. Inclusive, vi um time de trabalhadores, paramentados em camisetas amarelas, na rotatória da UFMT, pondo a mão na massa, literalmente (e só espero que essas ações não fiquem restritas “onde o padre pisa”). Isso é bom, Cuiabá está necessitada e, quer dizer que finalmente, a máquina está em movimento, porém não é o bastante.
O que percebo nesse processo, é a ausência de um planejamento articulado e integrado, de médio e longo prazo, envolvendo poder público, empresariado e com a participação popular – condição imprescindível para que os interesses do conjunto da sociedade e dos trabalhadores sejam respeitados.
Se a Cuiabá do século XIX se modernizou, conforme evidencia a professora Elizabeth Madureira, a Cuiabá do século XXI precisa se tornar próspera, bela e humana. Mas, isso só será possível se o nosso povo e dirigentes compreenderem, entre outras coisas, que o transporte coletivo está relacionado ao direito de ir e vir e deve ter qualidade, regularidade, ser confortável e suficiente; tarifas devem ser barateadas e ciclovias construídas.
O saneamento básico – protagonista de uma verdadeira cena de novela de horário nobre – deve primar pelo abastecimento, sem interrupções, de água potável, coleta e tratamento de esgoto, coleta e tratamento de resíduos sólidos e de manuseio das águas fluviais. Acredito que isso faria um bem danado para os nossos lindos córregos e rios, especialmente o Rio Coxipó e Rio Cuiabá.
A cultura, segundo Célio Turino, é o fio condutor que une o direito à saúde, ao transporte, à moradia, à escola, ao trabalho e só com ela “conduziremos nossa sociedade à igualitária democracia, recolocando os cidadãos no caminho da emancipação humana”. E o povo cuiabano está desejoso que a sua cultura adquira centralidade, expressas em políticas públicas, pois sabem da necessidade de sua difusão e circulação.
Acho que é essa a Cuiabá que perseguimos; “tchapa e cruz” ou “paus rodados”, queremos continuar amando essa cidade, comendo peixe no São Gonçalo, admirando o Rio Cuiabá, atravessando a Prainha, cantando e dançando o Siriri/Cururu, ouvindo rasqueado, a viola de coxo e repetindo “eu me orgulho de ser um cuiabano...”. Com qualidade de vida!
Marilane Costa – Mestre em Educação; Professora do IFMT – Integrante do Grupo de Pesquisa As vicissitudes da Sociedade Brasileira (IFMT/UFMT/UNEMAT); Membro da Direção Estadual do PCdoB.
sábado, 2 de abril de 2011
A Comuna de Paris
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Transformações no mundo trabalho e sindicalismo no Mato Grosso
quarta-feira, 30 de março de 2011
JOSÉ ALENCAR E O ENSINAMENTO AO POVO BRASILEIRO
Não pude deixar de me emocionar ao ver os noticiários desta terça-feira, dando conta do falecimento do ex-presidente da república, José Alencar.
Sempre que meus pensamentos recaiam sobre ele, ao longo dos últimos anos, a mensagem era sempre a mesma: “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor (...) Eu sou brasileiro e não desisto nunca”. E essa será sempre a imagem que dele terei. Penso que José Alencar não foi vencido pelo câncer, ao contrário, ele o venceu!
Não se trata aqui de uma nota açucarada, mas o reconhecimento do papel cumprido por um homem que ousou“traçar a sua história com plena consciência do que faz”.
Um sentimento desenvolvido em minha juventude – influenciada pela militância no movimento estudantil – é o de admirar meus pares. Pessoas que, como eu, fizeram opções por causas que nos levem a um mundo de mais igualdade. O tempo, a vida e a práxis, porém, nos ensina a amplitude e a complexidade desses sentimentos.
Em minha vida adulta, curiosa que sou das discussões acerca das classes sociais no Brasil, da luta de classes e da formação da consciência política, aprendi a respeitar e valorizar a trajetória de personalidades que, oriundas de diferentes classes sociais, se comprometem com a sua condição de classe. José Alencar, penso, foi uma dessas personalidades. Tanto que, fez a única opção possível: uma aliança com o povo ao se associar ao projeto de Poder desenhado pelos trabalhadores e liderado por um conjunto de forças personificadas pelo então operário, Luis Inácio Lula da Silva.
Lênin, ao tratar da conquista do Poder político pelo proletariado escreve que a arte do político e a justa compreensão de seus deveres “consiste, precisamente, em saber aquilatar com exatidão as condições e o momento em que a vanguarda do proletariado pode tomar vitoriosamente o Poder; em que pode, por ocasião da tomada do Poder e, depois dela, conseguir um apoio suficiente de setores bastante amplos da classe operária e das massas trabalhadoras não-proletárias; em que pode, uma vez obtido esse apoio, manter, consolidar e ampliar seu domínio, educando, instruindo e atraindo para si massas cada vez maiores de trabalhadores”.
Ouso considerar, portanto, que a participação de José Alencar no cenário de acirradas disputas políticas entre o projeto neoliberal e o projeto das forças progressistas e democráticas teve, historicamente analisando, um caráter pedagógico: educando, instruindo e atraindo, não necessariamente só as massas, mas sobretudo, a militância organizada dos movimentos sociais e dos partidos políticos que tinham grande dificuldade de compreender o que ressaltava Lênin, citando Marx, sobre a ideia de que a aliança do proletariado com a pequena burguesia poderia, em determinadas situações, representar um avanço na luta: “Se a união é verdadeiramente necessária, escrevia Marx aos dirigentes do partido, façam acordos para realizar os objetivos práticos do movimento, mas não cheguem ao ponto de fazer comércio dos princípios, nem façam “concessões” teóricas”.
José Alencar, um representante do empresariado, soube com muita precisão o momento exato de se colocar a disposição de sua classe, do Brasil e dos brasileiros. Sua aliança não implicou “comércio” dos seus princípios, uma vez que seguiu adotando postura propositiva e crítica, ao mesmo tempo.
A maior homenagem que qualquer brasileiro pode prestar a esse homem e sua família, nesse momento, é a reflexão de quão importante foi para todos nós a sua contribuição. O Brasil mudou, mas ainda não foi o bastante. É fundamental que os seus ensinamentos sirvam para continuarmos nos rumos da mudança, construindo um Brasil democrático e soberano, com um novo projeto nacional de desenvolvimento que abarque todo o povo brasileiro.
Marilane Costa – Mestre em Educação, Professora do IFMT e Membro da Direção Estadual do PCdoB.

