sábado, 15 de dezembro de 2012
Aos colegas jornalistas, que vergonha!
Ser jornalista e atuar em assessoria de comunicação não é uma tarefa fácil, os colegas que estão nesta empreitada, ou já passaram pela experiência, sabem muito bem do que estou falando. Pessoalmente sigo com os mandamentos do bom jornalismo, de respeito com a sociedade e seriedade na apuração do conteúdo que escrevo. São duas máximas que me dão tranqüilidade de chegar em qualquer ambiente sem medo de ser referenciado como mais um “puxa”. Infelizmente não vejo isto em todos os colegas.
Por falar em colegas, um modo carinhoso para me referir aos jornalistas como um todo, quem atua em assessoria tem sentido muita falta do respeito ao trabalho alheio. Ter o texto que escrevo reproduzido em outros sites, jornais, enfim, nos mais variados meios de comunicação é o que busco, mesmo tendo consciência que o papel do assessor é auxiliar o repórter, e não fazer o seu trabalho. Por isso, nem me incomodo com os famosos “Da Redação” onde o trabalho feito pelo assessor é totalmente jogado ao esquecimento.
O que realmente me entristece, e que vem se tornando rotina em alguns sites mato-grossenses, é a distorção do sentido da matéria divulgada pela assessoria. Vamos ao caso prático. Nesta sexta-feira (14.11) o Governo do Estado divulgou minha matéria “Mato Grosso quita dívida junto ao Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento”. Para minha surpresa, fui rapidamente procurado pela servidora do Tesouro Estadual que forneceu os dados para o texto com uma outra matéria impressa em mãos, do site O Documento. “Mato Grosso paga R$ 130 milhões de dívidas contraídas por cabides de empregos”.
Ou seja, a mesma matéria, sem mudar sequer uma vírgula, que escrevi mostrando o compromisso do Estado em honrar suas dívidas, ganhou uma chamada de capa totalmente pejorativa. Imagina minha situação ao explicar isto para uma contabilista, séria, que atua com dedicação no controle das dívidas do Estado, sobre como funciona os bastidores do jornalismo em Mato Grosso.
Cito aqui o código de ética do jornalista, em seu Art. 4º, onde “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação”. Temos ainda o inciso V do Art. 6º, “É dever do jornalista: valorizar, honrar e dignificar a profissão”.Aos colegas, espero apenas que seja feito jornalismo.
Veja os prints e tire suas próprias conclusões
Daniel Dino
Jornalista
Agente Instrumental do Governo de Mato Grosso
Secretaria de Estado de Fazenda
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
EU TE AMO, PORRA!
Eu, retardado como de costume, esqueci minha motoca ligada ontem de noite por algumas horas e resultado, a bateria bugou e foi pro beleléu. Resolvi então hoje pela manhã ir trabalhar de ônibus.
Chego no ponto ali da Prainha, e vejo um casalzinho de adolescentes sentados boniiiiiiiiiitinhos abraçados e ouvindo música usando o mesmo fone.
Eles tinham um estilo, sei lá, qualquer coisa roqueiro. A mina, cabelo ruivíssimo, piercings nos olhos e no nariz e ele idem. A diferença é que o cabelo do carinha um black power de causar inveja ao Seu Jorge.
E lá estavam os dois namorando com tanto carinho e tão juntos que quem olhasse rapidamente, acharia que eles eram só um.
Eu não sabia, mas o moço esperava o mesmo busão que eu. Quando o ônibus chegou a inércia do afeto dos dois ainda demorou alguns instantes até ser rompida e numa cena digna de Hollywood, daquelas em que o herói se despede de sua musa antes de ir à guerra, eles se abraçaram e mergulharam num beijo apaixonado.
O rapaz entrou no ônibus e a mocinha ficou lá do lado de fora com um olhar que misturava paixão e dor e apenas movendo os lábios num sussurro que só ele podia ouvir, disse: "Eu te amo". A cara dele foi de quem não entendeu, ela repetiu o gesto e ele ainda voando. Foi quando ela encheu o pulmões e gritou pra todo mundo ouvir: "EU TE AMO, PORRA!"
O jovem também disse que a amava e o motorista, já impaciente, colocou o veículo em movimento. O ônibus nem bem andou cem metros e o carinha do black power pegou o celular, provavelmente recebendo uma mensagem. Ele leu o torpedo e deixou escapar um sorriso como se dissesse "eu também".
Por Johnny Marcus
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Mensalão: o fato e as versões
Costuma-se afirmar que em politica não importa o fato e sim a versão.
Tudo bem que os ministros do STF podem ter exagerado, podem ter feito um julgamento essencialmente politico, vá lá, mas vamos e venhamos esses dirigentes do PT cometeram o erro politico de armarem esse imbróglio todo e pagam o preço de reproduzirem praticas - concedo à restritiva - ainda que parcialmente que condenavam em seus adversários políticos.
O “mensalão” foi um erro politico do PT? Longe de mim afirmar isso, repito o erro politico foi dos dirigentes que se meteram nesse imbróglio que foi parar no STF. A não ser que não seja um erro politico criticar praticas dos adversários e reproduzir essas praticas. O fato de um dirigente errar necessariamente não contamina todo um partido. Isso no meu entendimento deveria ser quase uma obviedade em politica, mas não é. Não sou e nunca fui do PT. Sou e continuo sendo critico do PT, mas não por razões morais e sim por razões politicas.
Razões politicas que cito duas para não me alongar no que considero tenham sido erros, equívocos políticos desse partido. O primeiro foi ter se recusado a participar do colégio eleitoral em 1985 que elegeu Tancredo Neves e que pôs fim à ditadura. O segundo, esse em minha opinião o mais grave, foi não ter assinado a Constituição de 1988 que garantia ao país o retorno ao estado de direito.
Por isso vejo com reservas, reservas fundamentadas em razões de natureza politica, tratar com complacência os dois principais dirigentes do partido que se meteram nessa trama envolvendo milhões de reais. Não da para negar que foi tecida uma grande teia para arrecadar fundos para financiamento das atividades politicas do partido e seus aliados e que esses dois dirigentes foram os seus principais protagonistas. Isso foi grave não da para esconder.
Justificar politicamente essa atividade de arrecadação de fundos utilizando o argumento de que essa foi uma pratica de que também se valia os seus adversários no passado é sem duvida um grave equivoco politico. Se esse crime politico já vinha sendo cometido pelos seus adversários não é uma justificativa para cometê-lo muito pelo contrario.
Armadilhas foram sendo colocadas ao longo dos recentes processos eleitorais pós-constituição de 1988 no que diz respeito ao financiamento de campanhas. Todas na direção de tutelar o voto popular, impedindo que uma massa de eleitores e eleitoras consideradas sem consciência politica vendesse o voto. Ao mesmo tempo em que foram sendo criminalizadas algumas praticas de arrecadação de fundos o custo financeiro das disputas eleitorais foram ficando mais caras e mais sofisticadas. O que tem implicado em remeter para clandestinidade pratica usual de apoios financeiros aos partidos e suas candidaturas. A consequência dessa criminalização se expressando nas inúmeras denuncia de compra de votos que tem permeado os últimos processos eleitorais.
Não da ainda para avaliar as consequências politicas de médio e longo do prazo deste polemico julgamento. Não consigo enxergar porem a positividade desse movimento em que tem se empenhado segmentos importantes do PT em considerar que o resultado do julgamento STF não tem legitimidade. Essa é uma aposta arriscada. O resultado é legitimo e tem que ser acatado. Ainda que possamos problematizar em torno de duvidas, especular sobre possíveis lacunas que um olhar crítico pode perceber. E realizar as possíveis contestações sempre nos marcos da legalidade.
Fica assim a sensação de que tem lacunas nessa história. Não da para entender porque elas não precisam ser esclarecidas para que se condenem réus que um dia foi indivíduos "notáveis" nas estruturas de poder desse país. É o uso a tal da “teoria do domínio dos fatos”, que na verdade acaba sendo uma espécie de teoria legitimadora para a fundamentação jurídica de uma versão.
Até hoje não foi divulgado um nome da chamada "base aliada" que recebeu para votar em projetos do governo. É tudo muito genérico, receberam, votaram... Até agora só temos os nomes dos "lideres" que receberam e distribuíram o tal do "dinheiro publico" que não fica claro exatamente de onde veio, pois não é dito de que rubrica do "orçamento do Estado" ele foi retirado. De qual ministério, de qual secretaria.
Quem foram os deputados federais corrompidos no mensalão? Até hoje não li sequer um nome, de um só pelo menos, dos que receberam para votar segundo os interesses do governo. Na época em que o PSDB propos o projeto de reeleição para os cargos do executivo federal, estadual e municipal o deputado federal Ronivon Santiago foi manchete do jornal Folha de Sao Paulo quando afirmou publicamente que recebeu dinheiro para votar nesse projeto. O que quero saber é quem recebeu a dinheirama para votar. Os nomes. Do jeito que esta sendo mostrado ate´agora parece que foi cometido um crime pela metade. Sabe-se que circulou muito dinheiro, com provas materiais de sua existencia, mas não se sabe com clareza de onde veio nem pra quem foi.
Não dá para negar que existiram muitos dos fatos que compõe esse processo do dito “mensalão”. Vai ficando evidente, entretanto, que esses acontecimentos não tiveram implicações negativas nesse ultimo processo eleitoral. E parece ao que tudo indica do apoio popular à gestão dos governos do partido. Isso para desgosto das oposições, que talvez esperassem uma severa condenação moral que se expressasse nas urnas. Não aconteceu. O que não dá para ocultar, usando a expressão da presidente Dilma é que muitos “malfeitos” foram cometidos. É bom relembrar que são as versões que passam para a posteridade e não os fatos. Não tem anjos nem vestais nessa historia. O que vale é a versão não o fato.
Manoel F V Motta - Novembro de 2012
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
SALÁRIO E VIVER MÍNIMOS
Em sua obra magistral de análise e interpretação da sociedade capitalista, Marx ao descrever o processo de exploração do Trabalho, nos diz que ao trabalhador, isto é, aos não-proprietários dos meios de produção, é destinado como pagamento pelo seu esforço físico e nervoso no processo produtivo das mercadorias apenas o necessário para que ele, o trabalhador, continue vivendo em condições de produzir mais. A isto ele denominou de salário mínimo – sem o qual o trabalhador perece, o que, aliás, não é de todo ruim para os donos do Capital quando há excesso de mão-de-obra desempregada e não existe trabalho para conformá-la.
Duas notícias mereceram comentários, os mais díspares, em muitos lugares em que os ouvi: o aumento do salário mínimo para R$ 622,00 e a ascensão do Brasil à condição de sexta economia mundial, ultrapassando a Inglaterra. As duas notícias estão sendo veiculadas como elementos da ideologia liberal, no sentido de conformar as massas à condição de subalternidade aos ditames do Capital. São propagadas como atestado de que nesse rumo todos serão afortunados num futuro indeterminado. Os programas de assistência e seguridade social, os quais tiraram da tortura da fome milhões de trabalhadores (embora permaneça uma multidão de, aproximadamente 6% da população brasileira vivendo miseravelmente) confirmariam tal perspectiva fazendo a Presidente Dilma nadar confortavelmente em extraordinários índices de popularidade – que fazem matar de inveja inconsoláveis demos e tucanos.
De minha parte, defendo que os governos Lula - Dilma tem alguns poucos elementos que os diferencia positivamente em relação aos anteriores, dentre esses, o tratamento dado ao salário mínimo e à Educação – ainda que insuficientes. Assim, não sou dos que ficam cantando loas ao governo dos dois líderes como se o Brasil estivesse sob o comando dos trabalhadores e caminhando rumo a uma república radicalmente democrática, política e economicamente. As razões podem ser expressas em números conforme podemos verificar.
Interpretando praticamente a Constituição Federal (Capítulo II, Direitos Sociais, art. 7º, inciso IV), o Dieese calculou o salário mínimo ali estabelecido e chegou ao valor de R$ 2.349,26, para o mês de novembro deste ano; isto mesmo, quase dois mil e trezentos e cinquenta reais. O descompasso entre o que a Constituição determina e a realidade vivenciada pelos trabalhadores, mostrada objetivamente pelo Dieese em números, revela o caráter classista das leis: só são respeitadas e cumpridas quando garantem os interesses dos donos do Capital, quando se referem aos direitos e interesses do Trabalho mil e uma desculpas são produzidas para não serem cumpridas. Revelam, também, que, apesar do crescimento real do salário mínimo, este está muito distante daquilo que a Constituinte entendeu ser necessário em termos salariais para uma sobrevivência digna dos Trabalhadores.
Por fim, segundo estudos do mesmo Dieese: 50,6% dos trabalhadores ocupados no Brasil ganham, no máximo, um salário mínimo; 34,8% ganham entre um e dois salários mínimos; apenas 14,6% ganham mais de dois salários mínimos. Esses números em confronto com a ascensão do Brasil à posição de 6ª maior economia do mundo revelam o que os donos do Capital e seus prepostos nos governos não querem que os trabalhadores percebam. Os números mostram que de todo o crescimento econômico verificado, de todas as riquezas produzidas pelos Trabalhadores brasileiros, o que lhes tem cabido não é mais que esse mísero salário mínimo: uma migalha caída do banquete dos donos do Capital. Essa é a natureza inexorável do Capitalismo (e quem duvidar é só lembrar as condições de vida e trabalho impostas aos trabalhadores europeus pelo Capital agora), a qual foi denunciada por Marx há 150 anos. Mas como diziam os companheiros do PT (alguns ainda o dizem): “um outro mundo é possível” – é esse que precisamos construir!
Professor Me. Elismar Bezerra Arruda
Duas notícias mereceram comentários, os mais díspares, em muitos lugares em que os ouvi: o aumento do salário mínimo para R$ 622,00 e a ascensão do Brasil à condição de sexta economia mundial, ultrapassando a Inglaterra. As duas notícias estão sendo veiculadas como elementos da ideologia liberal, no sentido de conformar as massas à condição de subalternidade aos ditames do Capital. São propagadas como atestado de que nesse rumo todos serão afortunados num futuro indeterminado. Os programas de assistência e seguridade social, os quais tiraram da tortura da fome milhões de trabalhadores (embora permaneça uma multidão de, aproximadamente 6% da população brasileira vivendo miseravelmente) confirmariam tal perspectiva fazendo a Presidente Dilma nadar confortavelmente em extraordinários índices de popularidade – que fazem matar de inveja inconsoláveis demos e tucanos.
De minha parte, defendo que os governos Lula - Dilma tem alguns poucos elementos que os diferencia positivamente em relação aos anteriores, dentre esses, o tratamento dado ao salário mínimo e à Educação – ainda que insuficientes. Assim, não sou dos que ficam cantando loas ao governo dos dois líderes como se o Brasil estivesse sob o comando dos trabalhadores e caminhando rumo a uma república radicalmente democrática, política e economicamente. As razões podem ser expressas em números conforme podemos verificar.
Interpretando praticamente a Constituição Federal (Capítulo II, Direitos Sociais, art. 7º, inciso IV), o Dieese calculou o salário mínimo ali estabelecido e chegou ao valor de R$ 2.349,26, para o mês de novembro deste ano; isto mesmo, quase dois mil e trezentos e cinquenta reais. O descompasso entre o que a Constituição determina e a realidade vivenciada pelos trabalhadores, mostrada objetivamente pelo Dieese em números, revela o caráter classista das leis: só são respeitadas e cumpridas quando garantem os interesses dos donos do Capital, quando se referem aos direitos e interesses do Trabalho mil e uma desculpas são produzidas para não serem cumpridas. Revelam, também, que, apesar do crescimento real do salário mínimo, este está muito distante daquilo que a Constituinte entendeu ser necessário em termos salariais para uma sobrevivência digna dos Trabalhadores.
Por fim, segundo estudos do mesmo Dieese: 50,6% dos trabalhadores ocupados no Brasil ganham, no máximo, um salário mínimo; 34,8% ganham entre um e dois salários mínimos; apenas 14,6% ganham mais de dois salários mínimos. Esses números em confronto com a ascensão do Brasil à posição de 6ª maior economia do mundo revelam o que os donos do Capital e seus prepostos nos governos não querem que os trabalhadores percebam. Os números mostram que de todo o crescimento econômico verificado, de todas as riquezas produzidas pelos Trabalhadores brasileiros, o que lhes tem cabido não é mais que esse mísero salário mínimo: uma migalha caída do banquete dos donos do Capital. Essa é a natureza inexorável do Capitalismo (e quem duvidar é só lembrar as condições de vida e trabalho impostas aos trabalhadores europeus pelo Capital agora), a qual foi denunciada por Marx há 150 anos. Mas como diziam os companheiros do PT (alguns ainda o dizem): “um outro mundo é possível” – é esse que precisamos construir!
Professor Me. Elismar Bezerra Arruda
sábado, 24 de dezembro de 2011
Um natal em Moscou
Vivi em Moscou o ultimo natal do período soviético. Foi um daqueles eventos que ficam indeléveis em nossa memória. Lembro dele como um dos dias mais interessantes do período em que morei naquela cidade. Tudo aconteceu em torno da preparação e realização de uma ceia e de uma festiva troca de presentes. Quem organizou a festa foi um velho operário português, militante comunista desde a juventude e que tinha conhecido todos os dissabores da luta política clandestina durante a ditadura de Salazar. Curioso é que participaram da comemoração todos os membros, sem exceção, das delegações dos partidos comunistas de língua portuguesa que estavam naquela ocasião no Instituto de Ciências Sociais do PCUS em Moscou.
Educado em uma família de orientação religiosa crista católica sempre participei e continuo participando das celebrações do natal. Na minha infância elas eram simultaneamente religiosas e profanas. Na medida em que o tempo foi passando o lado do natal que culturalmente foi deixando marcas em mim foi o lado profano dessas celebrações. E esse natal em particular que passei em Moscou foi marcado pelo que poderíamos chamar de uma celebração laica.
O nosso esforço era para organizar uma ceia com comidas tradicionais do natal, ou seja, peru, bacalhau e leitão assado. Deu certo. O bacalhau apareceu misteriosamente por obra e graça da delegação portuguesa e o leitão foi fácil de ser adquirido em um dos açougues do bairro, pois é um tipo de carne muito consumida pelos moscovitas. Da nossa relação de comidas só não conseguimos um peru que teve que ser substituído por um faisão assado ave que por aqui costuma ser rara e cara e que lá podia ser encontrada nos chamados mercados “kolkosianos”. Foi como já disse uma ceia inesquecível, regada a legitima vodka russa, conhaque georgiano, de uma não tão boa cerveja russa e um delicioso espumante caucasiano.
Compartilhamos naquele momento, brasileiros, portugueses e africanos o prazer da conversa em língua portuguesa os sabores das ceias em família e as saudades de casa.
O calendário dos Cristãos russos é ligeiramente diferente dos Cristãos ocidentais. A celebração das datas dos principais eventos do cristianismo é diferente nessas duas tradições. O natal é uma delas. Em Moscou por conta desse desencontro de datas e tradições o dia de natal dos cristãos ocidentais era um dia comum no calendário russo. A cultura religiosa deles é bem diferente da ocidental.
O inverno no hemisfério norte estava recém começando, nevava e a temperatura estava alguns graus abaixo de zero. O Instituto era uma verdadeira babel de povos, de línguas e de cultura religiosas. Nossa ceia especial de natal em um dia comum no meio da semana foi alvo da curiosidade das outras delegações e acabou virando o assunto do dia nas cafeterias da escola na manhã seguinte isso ao lado do debate cotidiano e permanente sobre a já perceptível, que em seguida se mostrou irreversível, crise econômica, social e política enfrentada pelo partido comunista da União Soviética .
No natal do ano seguinte o poder soviético tinha se esfacelado e a Federação Russa já tinha hasteado no Kremlin sua bandeira tricolor. A velha Rússia passava novamente por uma convulsão e tinha o seu mapa redesenhado mais uma vez no século vinte.
Nunca acreditei nem que os soviéticos tinham construído um paraíso na terra e muito menos um inferno como apregoava a propaganda anticomunista. Morar lá uma temporada me mostrou que se lá não era o paraíso muito menos era o inferno. Passado vinte anos do fim da antiga “União das Republicas Socialistas Soviéticas” nesse mês de dezembro leio os primeiros balanços dessas duas décadas feitas por analistas que não se limitam a resmungar chavões anticomunistas.
A grande questão colocada é procurar saber até que ponto houve grandes transformações no ordenamento da sociedade russa nessas duas décadas. O poder mudou mesmo de mãos com a derrota e desintegração do partido comunista? Ele era mesmo monolítico como se auto-definia e assim imaginavam seus adversários? Reformas foram feitas é inegável, á duvida é se elas tiveram o alcance que os críticos liberais do poder soviético talvez esperassem. Não sei responder e o que tenho lido muitas vezes me coloca mais duvidas do que certezas
“Mudaria o Natal ou mudei eu?" Se interrogava Machado de Assis “em vão lutando contra o metro adverso” em seu “Soneto de Natal”
Houve mudanças é certo. Agora eu como o natal russo não sei até que ponto mudou. Continuo socialista e considerando que a tradição teórica marxista é aquela que pode nos permitir melhor compreender e transformar a realidade e o dia em que é celebrado o natal no ocidente continua não sendo feriado em Moscou.
Manoel F V Motta
Natal de 2011
Educado em uma família de orientação religiosa crista católica sempre participei e continuo participando das celebrações do natal. Na minha infância elas eram simultaneamente religiosas e profanas. Na medida em que o tempo foi passando o lado do natal que culturalmente foi deixando marcas em mim foi o lado profano dessas celebrações. E esse natal em particular que passei em Moscou foi marcado pelo que poderíamos chamar de uma celebração laica.
O nosso esforço era para organizar uma ceia com comidas tradicionais do natal, ou seja, peru, bacalhau e leitão assado. Deu certo. O bacalhau apareceu misteriosamente por obra e graça da delegação portuguesa e o leitão foi fácil de ser adquirido em um dos açougues do bairro, pois é um tipo de carne muito consumida pelos moscovitas. Da nossa relação de comidas só não conseguimos um peru que teve que ser substituído por um faisão assado ave que por aqui costuma ser rara e cara e que lá podia ser encontrada nos chamados mercados “kolkosianos”. Foi como já disse uma ceia inesquecível, regada a legitima vodka russa, conhaque georgiano, de uma não tão boa cerveja russa e um delicioso espumante caucasiano.
Compartilhamos naquele momento, brasileiros, portugueses e africanos o prazer da conversa em língua portuguesa os sabores das ceias em família e as saudades de casa.
O calendário dos Cristãos russos é ligeiramente diferente dos Cristãos ocidentais. A celebração das datas dos principais eventos do cristianismo é diferente nessas duas tradições. O natal é uma delas. Em Moscou por conta desse desencontro de datas e tradições o dia de natal dos cristãos ocidentais era um dia comum no calendário russo. A cultura religiosa deles é bem diferente da ocidental.
O inverno no hemisfério norte estava recém começando, nevava e a temperatura estava alguns graus abaixo de zero. O Instituto era uma verdadeira babel de povos, de línguas e de cultura religiosas. Nossa ceia especial de natal em um dia comum no meio da semana foi alvo da curiosidade das outras delegações e acabou virando o assunto do dia nas cafeterias da escola na manhã seguinte isso ao lado do debate cotidiano e permanente sobre a já perceptível, que em seguida se mostrou irreversível, crise econômica, social e política enfrentada pelo partido comunista da União Soviética .
No natal do ano seguinte o poder soviético tinha se esfacelado e a Federação Russa já tinha hasteado no Kremlin sua bandeira tricolor. A velha Rússia passava novamente por uma convulsão e tinha o seu mapa redesenhado mais uma vez no século vinte.
Nunca acreditei nem que os soviéticos tinham construído um paraíso na terra e muito menos um inferno como apregoava a propaganda anticomunista. Morar lá uma temporada me mostrou que se lá não era o paraíso muito menos era o inferno. Passado vinte anos do fim da antiga “União das Republicas Socialistas Soviéticas” nesse mês de dezembro leio os primeiros balanços dessas duas décadas feitas por analistas que não se limitam a resmungar chavões anticomunistas.
A grande questão colocada é procurar saber até que ponto houve grandes transformações no ordenamento da sociedade russa nessas duas décadas. O poder mudou mesmo de mãos com a derrota e desintegração do partido comunista? Ele era mesmo monolítico como se auto-definia e assim imaginavam seus adversários? Reformas foram feitas é inegável, á duvida é se elas tiveram o alcance que os críticos liberais do poder soviético talvez esperassem. Não sei responder e o que tenho lido muitas vezes me coloca mais duvidas do que certezas
“Mudaria o Natal ou mudei eu?" Se interrogava Machado de Assis “em vão lutando contra o metro adverso” em seu “Soneto de Natal”
Houve mudanças é certo. Agora eu como o natal russo não sei até que ponto mudou. Continuo socialista e considerando que a tradição teórica marxista é aquela que pode nos permitir melhor compreender e transformar a realidade e o dia em que é celebrado o natal no ocidente continua não sendo feriado em Moscou.
Manoel F V Motta
Natal de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Dia Nacional da Alfabetização
Artistas populares nordestinos que ficaram fora da escola não é novidade na cultura popular da região. Grandes talentos que não frequentaram os bancos escolares não foram impedimento para que com criatividade e brilho produzissem um trabalho notavel e contribuissem como poucos para a riqueza da cultura popular desse pais.
Artistas populares de baixa escolarização e de grande talento constituem uma imensa legião de poetas, musicos, artistas plasticos e artesãos. Destaco entre uma lista que poderia ser interminavel os nomes de Patativa do Assare( grande poeta das dores e amores do sertanejo ) Luiz Gonzaga, Mestre Vitalino, João do Vale, Jackson do Pandeiro, Pinto de Monteiro
A concepçao do analfabeto como incapaz tem raizes no Brasil da segunda metade do seculo XIX quando ainda no imperio foi aprovada a primeira lei que restringia o voto do analfabeto. Medida essa que foi incluida em 1891 na primeira constituição republicana. É bom lembrar que o primeiro censo feito no Brasil republicano registrava uma população de 70% de adultos analfabetos.Os que estavam nessa condição necessariamente ficavam de fora da possibilidade de participação nos poderes de estado que eram escolhidos pelo voto.
Essa imensa massa de homens e mulheres considerados incapazes passam a ser tutelados pela elite letrada formada basicamente por bachareis em direito e medicos. Foram necessarios cerca de cem anos para que o direto ao voto fosse universalizado pela constituiçaõ de 1988 que finalmente reconheceu o direto ao voto do cidadão e da cidadã que não são alfabetizados.
Esse entendimento do analfabeto como incapaz começa a mudar a partir da emergencia dos movimentos de educação popular que passa a compreendeer o analfabeto como um sujeito responsavel pela geração de riquezas e possuidores de conhecimento e sabedoria que os caracterizaria como pessoas responsaveis pela sua propria vida e pelo seu destino .Nessa perspectiva o exemplo daqueles trabalhadores que mesmo analfabetos ou semi alfabetizados se tornaram mestres em seus oficios. Ao longo de todo o seculo xx era comum encontrar mestres de obras, pedreiros, carpinteiros, marceneiros, mecanicos e mais um sem numero de profissionais competentes que não tinham tido acesso a escola. Analfabetos muitas vezes sim mas não incapazes como pregava o ideario da elite letrada do seculo XIX.
Ainda que tenham conquistado o direito ao voto permanece essa exdruxula proibição que impede quem não é alfabetizado possa ser votado. É espantoso que em pleno seculo XXI a sociedade continue considerado o analfabeto como “incapaz” politicamente. Como se o fato de não saber ler e escrever o torne incapaz de realizar uma leitura do mundo suficientemente critica que não lhe permita tomar decisões de interesse publico no parlamento.
Exemplo desse entendimento são as referencias feitas ao deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, que como milhares de outros garotos nordestinos do seu tempo não teve acesso a escola. Quando teve foi de forma precaria como milhões de crianças que tem origem no mesmo lugar social e economico que ele. Artista de circo, semianalfabeto e dono de um talento capaz de mobilizar com sua criatividade aprendida e desenvolvida nos picadeiros da vida mais de um milhão de eleitores e eleitoras do estado de maior desenvolvimento economico do pais.
É necessario que se tenha claro que não é o menor ou maior nivel de escolarização que determina a consciencia politica de quem quer que seja. A consciencia politica é fruto do entendimento que se vai construido ao longo da vida em torno de opções relacionadas com interesses economicos,sociais e culturais. É esse mergulho no cotidiano da existencia que vai forjando a consnciencia politica de homens e mulheres.
É importante, ainda que de fato não se tenha maiores efeitos praticos, ter uma data que marque a luta contra o analfabetismo. Em pleno inicio do seculo XXI esse país ainda conta o numero de adultos e jovens analfabetos em milhões. A vida de alguem que não domina a leitura e a escrita numa sociedade urbano industrial, principalmente, nas grandes metropolis é dura e marcada pela discriminação e pela exlclusão. Espero que um dia todos e todas nesse país possam saber ler e escrever, possam dizer sua palavra sem exclusão e discriminação
Manoel F V Motta, professor da UFMT e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Existe um mal estar com essa história de polícia na universidade.
Os recentes acontecimentos na Universidade de São Paulo em que dezenas de jovens foram desalojados do prédio da reitoria por uma tropa de choque da polícia militar recolocaram novamente na ordem do dia a questão da presença das forças policiais nos campi das universidades. Afinal qual seria mesmo o papel da policia nessas instituições de ensino, pesquisa e extensão ? Vigiar o "patrimonio" ( imoveis, moveis e semoventes)? Cuidar da observação da "moral e dos bons costumes" (seja lá o que isso for)? . O fato é que essa presença tem provocado um estranhamento no qual fica evidente que provavelmente ela não é a melhor alternativa para os problemas de segurança no interior dos campi.
Se de uma lado tem-se correntes do movimento estudantil que eventualmente consegue articular-se e bancar um gesto como esse de "ocupar" uma reitoria, por outro lado tem-se um reitorado frágil que não consegue evitar que isso aconteça, a consequência quase obvia é um desfecho como esse. “Ocupar" a reitoria foi uma decisão política e mandar "desocupa-la" usando força policial também. Temos que discutir politicamente os dois gestos. No meu entendimento esse é o foco do debate .
Quem é essa moçada que pensa, articula e realiza uma ação política como essa? Em sua maioria são garotos e garotas que cursaram durante anos as melhores escolas do estado de São Paulo e deram conta de ultrapassar a barreira de um dos vestibulares mais dificies do pais. Entrar na universidade, seja na USP ou em qualquer outra instituição de ensino superior de ponta desse país, para eles e elas é uma espécie de corolário quase natural da formação que receberam.
São jovens politizados, estudiosos. Sempre tiveram, em sua maioria, apoio familiar para que desenvolvessem suas habilidades e que tem no movimento estudantil sua porta de entrada para a luta política. Tradicionalmente é também daí que saem os quadros dirigentes do pais tanto para vida pública como para o setor privado.
Episódios com esse da “desocupação” liberam todo o rancor represado contra esse jovens “privilegiados” que no entender de muitos se desviaram da rota de bom mocismo que eram esperados deles. Não é a toa o que tem sobressaido no debate é a ideia de que a principal reinvidicação do movimento é a possibilidade de fumar maconha sem serem importunados pela força policial no campus. Pode até ser verdade, mas quando procura-se analisar com mais cuidado a realidade é outra.
A debilidade da reitoria em enfrentar essa situação ficou evidente ao longo do processo. Dialogar com essa moçada não é tarefa política simples. Boa parte os dirigentes das universidades não tem vivência democrática suficiente para lidar com essa geração que não conheceu o arbitrio da ditadura militar. Já nasceram em um ambiente em que a liberdade de pensamento e a livre participação politíca é um valor posto desde o inicio de sua formação. Dai o desfecho típico de gestores sem autoridade política o recurso a força policial.
Na medida em que se acirram as contradições a luta ideológica também se acirra. A tolerância diminui de lado a lado. Impotente para conter a inquietação dos jovens diante das contradições vivenciadas no dia a dia da vida acadêmica, a burocracia dessas instituições revelam todo o seu despreparo. Esse despreparo se revelando na necessidade de se impor não mais pelo convecimento, mas pela clássica saida que marca a natureza do estado moderno: o exercicio do monopólio do uso da força.
Historicamente a Universidade em todo mundo se assume como um espécie de territorio livre em que caberia desde a mais inusitada teoria sobre qualquer dimensão do real a experimentação de vivências que iriam desde o consumo de maconha ao sexo casual.
É necessario entender com isso que nas universidades dificilmente politicas de segurança, semelhantes a essas que estão em moda nas comunidades, de “pacificação” com a presença massiva da força policial tem muito pouca probabilidade de dar certo.
O desafio posto aos gestores das instituições de ensino superior sejam as vinculadas ao estado ou a empresários da educação é como lidar com as demandas existenciais, nos limites institucionais, de alunos e alunas seja as de fundo libertário sejam aquela de tradição conservadora. Por essa razão tem-se de pensar e propor políticas de segurança que atentem as caracteristicas das instituições universitárias. Apelar de forma tosca para o uso de forças policiais não vai resolver os problemas de segurança nessas instituições.
Ao mesmo tempo que os ideiais democráticos em defesa da livre expressão e da produção autonoma do conhecimento estão presentes na universidade, existe hoje uma forte onda conservadora e ela atinge principalmente os jovens. Só espero que ela não se transforme em forças do arbitrio e do terror. É nessa perspectiva em defesa desses valores que vamos a duras penas construindo uma universidade mais democrática no Brasil
Manoel F V Motta – Doutor em Educação pela USP e professor na UFMT
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