quinta-feira, 21 de julho de 2011

O Corrupto da Vez


Não consegui entender o "linchamento" moral e político do diretor do DNIT Luiz Antonio Pagot mesmo depois de sua fala no Senado e na Câmara. Depoimento realizado de forma espontânea publica e no fórum adequado. O que esperavam dele? Um depoimento sensacionalista, leviano cheio de insinuações a moda da revista Veja sem provar nada?
Bobagem isso não aconteceu nem quando o congresso promoveu um verdadeiro festim de encenações histriônicas quando alguns parlamentares de oposição ao governo Lula interrogavam os depoentes com um fervor digno de um espetáculo teatral de circo mambembe. Por ironia da historia os que apareceram naquele momento como arautos da moralidade publica permanecem como parlamentares inexpressivos. E segundo reportagem da revista Carta Capital tentando sofregamente passar para a base do governo Dilma.
Quem analisar sem paixão o seu longo depoimento nas duas casas perceberá que ele se ateve a dois eixos de argumentação: o primeiro é que todas as decisões eram colegiadas e o segundo era o que de todos os procedimentos eram fiscalizados e acompanhados pelas instituições designadas para esses fins. Com dados objetivos foi sendo mostrado aos congressistas detalhes de como estavam sendo tratado cada um dos problemas apontados. Não me lembro de nenhuma contestação relevante ao que foi apresentando por nenhum parlamentar das duas casas. Alem do mais nenhuma pergunta ficou sem resposta.
O que interessa agora é saber se os seus argumentos são verdadeiros ou falsos.

Com o fortalecimento da sociedade civil pós ditadura foram sendo criadas, ou fortalecidas, instituições de regulação e controle que tem o papel de inibir que corporações, empresas ou indivíduos em articulação com os grupos políticos - ideológicos no poder se beneficiem indevidamente da massa de recursos financeiros posto a disposição da sociedade pelo Estado. Recursos que devem servir a implementação de políticas publicas e de investimento e custeio da estrutura do estado. E o caso de órgãos como os Tribunais de Contas, do Ministério Publico e das Controladorias. Se não funcionam é o caso de perguntar com já se fazia no século XIX quem vigia o vigia quando esta em pauta os interesses econômicos em uma sociedade organizada segundo regras inspiradas no liberalismo econômico, social e político.
Quando cursava o ensino médio lá pelos anos sessenta do século XX estudando a revolução francesa aprendi com a trajetória de Robespierre que essa historia da condenação da corrupção de forma emocional pode conduzir a julgamentos que desprezam os fatos, produzindo injustiças e no limite ao arbítrio do terror. Lembro que por essa época, para ser mais preciso Dezembro de 1968, um dos argumentos para o AI-5 era o combate a corrupção. O que se viu depois foram anos de arbítrio e de corrupção.
Outro dado importante em seu depoimento foi o de que essa autarquia vem sofrendo um acelerado processo de precarização de seus quadros técnicos em contrapartida a ampliação de suas responsabilidades e da grandiosidade das tarefas que lhe estão atribuídas. Ninguém lhe contestou. É bom lembrar que esse processo de precarização dos aparatos estatais é o resultado de uma visão político - ideológica que considera que investir na profissionalização do funcionalismo contratando quadros técnicos qualificados e com salários compatíveis com sua formação é desperdiçar o dinheiro publico, é inchar a maquina do estado.
É evidente que corporações, empresas e indivíduos financiem candidaturas identificadas com seus interesses políticos e econômicos. As chamadas bancadas de interesses como a ruralista, para falar só de uma das mais conhecidas, tem suas candidaturas e os seus partidos financiados prioritariamente por esse setor da economia. Com a construção civil não é diferente.
É republicano e democrático que corporações, empresas e indivíduos financiem os partidos e as candidaturas, nos limites e parâmetros da legislação, que contemplem seus interesses. A não ser que se mudem as regras atuais de financiamento de campanhas e elas passem a ter financiamento publico. Fazer de conta que isso não acontece, ou não existe é ingenuidade ou hipocrisia.
Não sei qual o propósito ou o alcance da tal “faxina” que a presidenta Dilma afirma que está realizando no ministério dos transportes. Tudo bem mãos a obra presidenta. Agora em que lugar ele vai encontrar a legião de anjos, acima do bem e do mal, tecnicamente neutros capazes de tomarem decisões justas e desinteressadas sem qualquer viés político ou econômico é que vai ser difícil. Sem novidades.
Tudo bem concluído o “fora Pagot” logo, logo outro grande corrupto vai estar na vitrine para a execração dos incorruptíveis de plantão nas redes sociais, blogs e mídia de oposição ao governo. Bom mas isso faz parte do jogo de aparências e das querelas ideológicas. A questão agora é saber quem será o herdeiro deste espolio que o PL esta deixando escapar de sua área de influencia política
O resto é cretinice do jornalismo denuncista da Veja, Folha de SP Estadão e Globo
Manoel F V Motta - Professor da UFMT

sexta-feira, 8 de julho de 2011

OS TRABALHADORES E A FÓRMULA GLOBAL DE CONQUISTAR UM REAJUSTE SALARIAL


Depois de anos de experiências diversas nas lutas e movimentos dos trabalhadores por melhores condições de vida e trabalho, chego hoje a conclusão de que estava totalmente equivocado. Que não havia necessidade de tantos enfrentamentos, greves, embate com as forças de segurança, sindicato, etc., pois, tudo poderia ter-se resolvido com uma simples conversa amistosa, mansa e delicada entre patrão e empregado. Sim, é isso que uma dupla de apresentadores de um telejornal da Globo, nesta manhã de inverno mato-grossense, me jogou impunemente na cara como ensinamento.
A reportagem foi bem urdida, inclusive plasticamente. Uma moça esguia, bonita, de fala fluente e bem articulada é apresentada em um escritório como funcionária deste, insatisfeita com os seus vencimentos e disposta a reclamar ao seu chefe aumento salarial. A repórter recorre a um “especialista” (que Gramsci identificaria como intelectual orgânico do Capitalismo) em recursos humanos para recolher deste, orientações sobre como deveria proceder um trabalhador para pedir e receber aumento salarial. O “especialista” dá diversos conselhos: não se emocionar, não falar dos seus problemas, falar da sua contribuição para o crescimento e sucesso da empresa, etc.; e, caso o patrão lhe respondesse com um sonoro não, alegando falta de condições financeiras para conceder o reajuste, o trabalhador não deveria se revoltar, mas perguntar ao patrão o que ele (empregado) deveria fazer para que a empresa crescesse, melhorasse o seu faturamento (lucro) e, assim, tivesse as condições para lhe atender ao pedido.
Os professores das redes municipais de ensino de alguns municípios mato-grossense fizeram greve este ano por reajustes salariais, os da rede estadual estão em greve, os bombeiros de diversos estados da Federação fizeram greves com graves enfrentamentos, os funcionários da SEMA-MT fizeram greve, os da Saúde Pública, também; diversas outras categorias ameaçam paralisar suas atividades por melhores salários e outras reivindicações. Segundo a reportagem todos esses estão equivocados, não é assim que se consegue ter as reivindicações atendidas; bastaria um diálogo manso, delicado, individual, sem tumulto, sem assembléias barulhentas, sem passeatas, etc., para que seus respectivos patrões, públicos ou privados, atendessem as suas reivindicações. Entretanto, caso os patrões não pudessem atender, os trabalhadores deveriam indagar candidamente sobre o que eles deveriam fazer para melhorar as condições econômicas da empresa e, assim, terem suas reivindicações atendidas mais tarde.
A reportagem é um deboche com a história e com a inteligência dos trabalhadores, tal como fazia Delfim Neto quando ministro da Fazenda no governo dos militares: o ilustre intelectual do Capital dizia que era necessário fazer o “bolo” (a economia) crescer para depois reparti-lo com todos. De fato, o bolo cresceu, por obra e sacrifício dos trabalhadores brasileiros, mas quem o comeu não foram os trabalhadores e sim os grandes empresários, os grandes proprietários rurais e donos de bancos, dos quais Delfim era preposto. Agora, de forma melodramática tentam nos convencer de que a sociedade não está dividida entre os que tem e os que não tem a propriedade dos meios de produção, de que os interesses dos empresários são os mesmos interesses dos trabalhadores, aliás, que não existe trabalhadores, mas “colaboradores” e que, portanto, não há a necessidade destes se organizarem em sindicatos, associações, etc., para reivindicar melhores condições de vida e trabalho. A reportagem extingue, com meia dúzia de palavras ensaiadas pela jornalista-atriz e com cenas comoventes como se de um filme de Akira Kurosawa, a luta de classes, a mais valia e a natureza, enfim, do Capitalismo. Quê fazer?
Lembrei-me de uma entrevista dada por Professor Paulo Freire a uma revista de circulação nacional, quando questionado sobre o poder que a fala, o discurso, de um professor-educador teria diante da força de um meio de comunicação de massa, capaz de “fazer a cabeça” de milhões de pessoas ao mesmo tempo no Brasil inteiro. Com a sua serenidade característica Paulo Freire respondeu (palavras minhas) que aquele meio de comunicação, por mais abrangente e poderoso que fosse não poderia seqüestrar a realidade em sua totalidade, de modo que, apenas como parte da realidade ele era cognoscível e, assim, podia ser re-conhecido, interpretado e reduzido à sua condição de instrumento da dominação. A fala do saudoso professor faz aflorar mais a necessidade que a maioria da sociedade brasileira tem de uma escola vinculada aos seus interesses, às suas necessidades e, portanto, de professores-educadores capazes e comprometidos com suas funções de intelectuais orgânicos dessa maioria. Essa perspectiva exige professores-educadores com uma determinada competência, competência que, para além de formar gente para o “mercado”, seja capaz de elevar intelectualmente essa gente para uma compreensão superior da realidade e, desse modo, inserirem-se conscientemente no processo de recriação material e espiritual da sociedade em que vivemos.

Elismar Bezerra - Ex Secretario de Cultura de Mato Grosso e mestrando em educação na UFMT

sexta-feira, 3 de junho de 2011

MULHER E PODER


Convidada para contribuir com o II Congresso Estadual da União Brasileira de Mulheres – UBM/MT –, “Mulher, Poder e Trabalho”, ocorrido no dia 21 de maio, numa mesa nominada “Mulheres e Poder Político – Panorama Nacional e Estadual” refleti que, no campo filosófico pondera-se como estabelecemos a relação entre política e poder; poder, força e violência; autoridade, coerção e persuasão; origem, natureza e significação do poder. E mais, se política, de forma simplificada, pode ser entendida como “luta pelo poder”, então estamos falando de “conquista, manutenção e expansão do poder”. Para que se exerça o poder, é preciso “força”.

Partindo desse pressuposto, poderia fazer uma abordagem teórica acerca das diferentes correntes de pensamento sobre a temática, uma vez que, ao responder essas questões, cada corrente o fará expressando suas concepções. Essa abordagem é importante, mas julguei-a desnecessária para o momento proposto.

Mais importante, pra mim, naquele momento, era discutir com as mulheres que todos nós, em cada espaçozinho que vivemos disputamos o poder. O poder de... A tendência é que as pessoas rejeitem e neguem que o poder, mesmo nas suas relações cotidianas: pais e filhos, companheiro e companheira, professor e aluno, empregador e trabalhador.

Também julguei importante destacar o artigo A Crise do Homem, do jornalista José Carlos Ruy, na revista Presença da Mulher de 1993. Nele, Ruy reconhece que as mulheres são pioneiras e donas da iniciativa de redefinir papéis, de superar “o script tradicionalmente reservado à mulher”. Essa mudança nos scripts a que ele se refere, vem acontecendo em larga escala. Em se tratando Em se tratando de poder, estamos na fase da manutenção e expansão, dialeticamente falando, na fase da conquista. Como diz Elza Campos, Coordenadora Nacional da UBM: “É um marco na efetiva busca pela ampliação dos espaços de poder em todas as organizações da sociedade”.

O Congresso da UBM ocorre num momento impar, o primeiro após a eleição e posse da primeira mulher presidente do Brasil, A eleição de Dilma é resultado de uma série de fatores, mas também de uma vitória do movimento feminista e, mais especificamente emancipacionista, que formou novas mentalidades. Mais significativo ainda, é perceber que a UBM dá centralidade, em seu congresso nacional, as discussões sobre a participação da mulher e o Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento. E essa foi a minha linha de abordagem: discutir a questão da mulher no Estado de Mato Grosso e a sua participação política passa,
obrigatoriamente, por discutir o desenvolvimento.

Abri mão da exposição do panorama nacional quantificando a participação da mulher por verificar que o mesmo já é de conhecimento amplo e que a participação política das mulheres é imensa, propositiva e em todas as esferas. Comungo, porém, com a Resolução do Seminário As Mulheres e a Reforma Política ao observar que apesar de todos os saltos qualitativos, as mulheres continuam “sub-representadas em relação ao potencial de nossa atuação política”. A Resolução questiona: Até quando o Brasil (acrescento, Mato Grosso) vai conviver com alta participação das mulheres no eleitorado e nas lutas sociais e baixa inserção das mulheres nos espaços de poder?

Em 2008, a pesquisa de Michelli Burginsk (atualmente professora da UFT) constatou que a cultura política em Mato Grsso ainda é a de submissão, ancorada na divisão sexual do trabalho na sociedade; e em fatores familiares e domésticos. Ou seja, mulheres que “ascenderam pela via familiar, particularmente a marital” elegeram-se diretamente ao parlamento federal, as que tiveram suas trajetórias forjadas a partir dos movimentos sociais, o fizeram gradativamente: vereadora, deputada estadual, deputada estadual ou senadora. Já naquele momento, identificava-se uma queda na participação e representação feminina em cargos eletivos. De lá pra cá, esses números diminuíram mais. O cenário no Estado nos remete a considerações desfavoráveis quanto à representação nos espaços de decisões políticas e nos partidos políticos.

Contudo, na tentativa de preenchimento de vagas, muitos partidos têm driblado a legislação. Segundo Michelli, legendas têm utilizado a figura das “mulheres- laranjas”, que não possuem vida orgânico-partidária para compor a cota exigida pela lei. “O interessante é que muitas nessa situação acabam se elegendo”. Isso se aplica, principalmente, nas disputas das câmaras municipais, uma vez que os avanços da mulher na política são mais visíveis nas eleições municipais.

Sem entrar na discussão de classe, da representação e compromissos de classe, destaco que Bia Spineli, Lueci Ramos, Vera Araújo, Chica Nunes, Celcita Pinheiro, Teté Bezerra, Thelma de Oliveira, Serys, Iraci França e Teresinha Maggi são nomes do legislativo e executivo que estiveram em foco, mas por diversas razões vão sendo, gradativamente, “apagadas” desse cenário. Ousaria dizer que – sem entrar em questões internas de partido –, Serys é um exemplo claro de mulher que disputa, violentamente, o poder de dirigir um partido no estado. “O campo político não é somente masculino devido à majoritária presença dos homens, mas porque antes de tudo, traz uma simbologia identificada com os valores masculinos. Além do mais, o ato de comandar e de tomar decisões tem sido historicamente atributos imputados aos homens”.

Algumas atuações e representações nesses espaços, em nosso Estado, foram subsumidas por orientações masculinas, as mulheres se tornaram meros instrumentos. As desigualdades de gênero se refletem nas práticas políticas internas dos partidos. “Historicamente os partidos políticos permaneceram fechados à representação das mulheres”.

Considerando como espaços de poder mais que o parlamento, executivo, judiciário, mas todas as instâncias e instituições sociais, com condições de intervir na transformação da sociedade defendo que as mulheres no Mato Grosso tomem como tarefa um amplo debate sobre o Modelo de Desenvolvimento. Debatê-lo permitirá que conheçam melhor o processo histórico em que se formou o Estado; os modelos de produção que se conflitam: agronegócio e agricultura familiar; questões de trabalho, renda, emprego e economia solidária; a economia do Estado; saúde, educação: inclusiva, não sexista, não homofóbica; a cultura e a mídia; reforma urbana e meio ambiente; a luta contra a violência doméstica e familiar. Isso é a grande política! Articulada de forma tal que, permitirá às mulheres se recolocarem no centro do debate, ocupando espaços sociais e de representação política, indubitavelmente

MarilaneCosta - Mestre em Educação; Professora do IFMT – Integrante do Grupo de Pesquisa As vicissitudes da Sociedade Brasileira (IFMT/UFMT/UNEMAT); Membro da Direção Estadual do PCdoB. laneacosta@gmail.com


quarta-feira, 18 de maio de 2011

A onda

O espetáculo que se descortinou à nossa frente
vai muito além de qualquer imaginação.
Qualquer imagem é mais do que eloquente
e o assombro é total perante tal demonstração

De uma tsunami, nada está salvo.
Ela não tem necessidade de alvo.
Não há uma contra-força que a enfrente;
nem mesmo os delírios de uma mente.

A força sísmica que se repete com frequência
não vê obstáculos que venham a lhe fazer frente.
Resta apenas amenizar suas consequências
Expondo, assim, nossa fragilidade inteiramente.

Ondas indomáveis e gigantescas
brincam com navios como se fossem brinquedos.
É uma visão pavorosa e dantesca
encontrar-se no meio deste enredo.

A onda... Como evitá-la?
Existe forma de denominá-la?
Como poderia classificá-la?
Haveria alguma forma de amainá-la?

A água deixa de ser líquida e vira um muro gigantesco.
Parece que com as outras catástrofes não tem parentesco.
Só o medo mobiliza nesta situação,
e voltar ao normal passa a constituir-se em uma obsessão.

É possível desvendá-la, conhecê-la,
porém, não há como mudá-la.
Não há como puni-la, convencê-la.
Resta somente aceitá-la.

Não há sorrisos em sua ação.
Tudo é monstruoso.
Seu poder é fabuloso,
despertando medo e comoção.

Ultrapassa qualquer expectativa.
Vai muito além de nossa capacidade previsiva.
Os litorâneos vivem o temor de que um dia chegará,
sem avisar, sem pedir licença ou alvará.

A razão a explica conformada,
pouco importa se de forma real ou deformada.
Nem adianta estar preparado,
porque, na hora, algo pode dar errado.

Tudo isso ultrapassa a razão.
Explicar não basta.
Ela tudo devasta,
no caminho de seu arrastão.

Diante dessa demonstração colossal,
o sofrimento é apenas um componente da paisagem.
Tudo é destruído com extrema voragem,
diante de sua vazão descomunal.

Não há como construir o solo onde se pisa
Não há firmeza no solo que ela visa.
Parece que vivemos em uma nau instável.
Tudo aos nossos pés é mutável

Dor não combina com revolta nesses momentos.
Só o fato de estar vivo já é uma concessão,
que demanda de todos união,
dada a magnitude desses eventos.

Muitas vidas foram embaralhadas
e certezas de antes agora dão em nada.
Muitos corações estarão condoídos,
e os ânimos de todos estarão moídos.

Quando o fenômeno é de grande termo,
não há ambiente para sentir dó de si mesmo.
É uma lição de abismo onde se percebe tão minúsculo,
cuja força não se pode contrapor com os músculos.

A vida acaba vencendo,
seja pela teimosia ou submissão.
Fatos novos e descobertas vão acontecendo
na vida daqueles que encaram nisso uma missão.

Na preparação para o próximo evento,
pode-se até tentar um certo aprovisionamento,
No entanto, tudo será sempre um desafio
de um esforço que pode durar anos a fio.
[BSB – 12/03/2011 (Lab. Sabin)]

Geraldo José de Almeida - Poeta e Historiador

sexta-feira, 29 de abril de 2011

POR UM 1º DE MAIO FESTIVO POR UM 1º DE MAIO POLÍTICO-PEDAGÓGICO

Há quase duas semanas, venho tentando refletir sobre algumas temáticas que me inquietam.

Primeiro, pensei em escrever sobre trabalho, o tema está presente nas disciplinas que ministro na licenciatura. Depois, tentei iniciar um texto falando sobre o 1º de maio em Mato Grosso. Por diversas vezes iniciei, parei, deletei e, eis que dois fatos me instigaram a concluir essa digressão: o primeiro foi o artigo do jornalista Kleber Lima dessa semana – Tempo alvissareiro – e o segundo, a paralisação e manifestação dos servidores públicos federais ocorrida nesta quinta-feira (28 de abril), que ganhou as ruas de Cuiabá.

Minha intenção é ponderar sobre os temas que são abordados pelo jornalista e que já me intrigavam desde que vi as primeiras chamadas, na TV, para as comemorações do 1º de maio – dia do trabalhador – no estado.

Quando li seu artigo, imediatamente me lancei à busca da obra Teoria dos movimentos sociais – Paradigmas clássicos e contemporâneos – de Maria da Glória Gohn que sabia estar perdida em minha estante. Estou relendo para retomar algumas contribuições, uma vez que a leitura inicial ocorreu quase 10 anos atrás. De toda forma, não divirjo de que as instituições sociais estão em transformação. Logo, compreendo, não é uma “nova sociedade civil que emerge no planeta”, mas sim, uma que se transforma com características diferentes da “sociedade civil tal qual a conhecemos”, assumindo novas formas de ação e vivência em decorrência de necessidades que são do nosso tempo, do nosso momento histórico.

Concordo também que, em se tratando do movimento sindical em geral e de Mato Grosso, muita coisa mudou nos últimos 40 anos. Isso porque, segundo Ricardo Antunes, a globalização, a reestruturação produtiva e a crise que o movimento operário enfrenta desde a década de 1970, têm grande intensidade e atingiu “a materialidade e a objetividade do ser-que-vive-do-trabalho” sua “consciência de classe, afetando seus organismos de representação, dos quais os sindicatos e os partidos são expressão”.

Ainda que nos últimos 08 anos, após uma intensa ofensiva neoliberal, os trabalhadores tenham aberto um período de maior valorização do trabalho e do trabalhador, é certo que o neoliberalismo não foi derrotado. Ele ainda vive e aspira um retorno triunfal. E eis onde reside outra preocupação: assim como o governo Lula, o da presidente Dilma também é um governo de disputas entre as forças. Vencerá essa parada, quem tiver maior poder de mobilização.

Infelizmente, parece-me que nesse primeiro momento, não são os trabalhadores quem tem levado a melhor: o governo cortou 50 bilhões de reais do orçamento; de novo assistimos a pressão por conta da volta da inflação, das altas taxas de juros, do ajuste fiscal; projetos que flexibilizam conquistas e privatizam, gradativamente, a educação e a saúde voltam à pauta. Políticas sociais são secundarizadas em detrimento da política econômica. No plano estadual, a lógica se repete.

Na era de grandes avanços tecnológicos é natural que a criatividade também precise ser reinventada para tocar as “mentes e os corações” dos brasileiros, dos trabalhadores. Não sou, absolutamente, contra eventos de massa, que mobilizem milhares e milhares de pessoas, que tragam alegria, festa, diversão e, porque não, prêmios!

O que chama atenção, porém, nas atividades convocadas para o 1º de maio no Mato Grosso é o fato das entidades, diga-se as Centrais Sindicais, abdicarem de, nesse processo, tratar da elevação do nível da consciência política com um caráter político-pedagógico, “inserindo as lutas que nascem espontaneamente num direcionamento revolucionário que capte a totalidade das relações sociais e busque a sua superação”, conforme abordado por Lênin e outros.

Tive o cuidado de buscar nos sítios de todas as Centrais no estado (ou dos sindicatos ligados a elas); ouvir as entrevistas concedidas pelos dirigentes, assistir as chamada na TV, buscar panfletos (in)formativos que cumpririam esse papel, mas, nada encontrei além do convite para as atividades com uma nota de roda-pé (as vezes nem isso, como no espaço publicitário do jornal A Gazeta).

Outra Central, que não integra o pool de entidades promotoras do show, transferiu sua comemoração para o interior do estado – não que o interior não o mereça, mas é na capital que o protagonismo dos trabalhadores ganha visibilidade.

Penso ainda, que às vésperas do 1º de maio, as Centrais, todas elas, perderam uma oportunidade impar de utilizarem as diversas manifestações que ocorreram no estado para imprimirem esse caráter político-pedagógico ao qual me refiro, uma vez que, se ausentaram das mesmas: os professores da rede pública estadual paralisaram por 01 dia; outros segmentos estaduais realizaram atividades específicas e, inclusive, fecharam acordos coletivos; servidores da saúde municipal pressionaram vereadores e ocuparam a prefeitura; servidores federais paralisaram, o IFMT e UFMT realizaram a maior manifestação pública de rua ocorrida nos últimos 08 anos (salvo engano), por servidores federais contra políticas conservadoras e neoliberais.

Por fim, penso que a lição desse 1º de maio que deve ficar, para todos os trabalhadores e dirigentes de Mato Grosso é que, buscar alternativas criativas de mobilização é importante, mas de nada adiantará se não ocorrer, concomitante e continuamente, um processo de conscientização, sob pena de cair no obscurantismo.

Marilane Costa – Mestre em Educação; Professora do IFMT – Integrante do Grupo de Pesquisas “As Vicissitudes da Sociedade Brasileira” (IFMT/ UFMT/ UNEMAT); Membro da Direção Estadual do PCdoB.

A Ética e a prática do jornalismo

Todo cidadão que decide investir na carreira de jornalismo deve entender que, uma vez profissional, está ali para informar a população, podendo constituir, subsidiariamente, uma fonte de distração e entretenimento. Se a função do jornalista é informar a sociedade, então significa que, em primeiro lugar, que a coisa mais importante dos meios de comunicação, a única coisa mais importante são as suas notícias (principalmente os profissionais de Rádio e Televisão, que são concessões públicas, portanto, pertence ao povo, claro). Não são as suas emoções. Os jornalistas não é a notícia, e, embora pese a crescente pressão motivada por uma concorrência feroz entre os chamados Mass Media(*), não deve nunca confundir-se com ela.
Sendo os meios de comunicação, concessões/empresas, que produz e divulga informações e notícias, não pode servir interesses criados, nem outros interesses, a não ser de informar. O jornalista não serve para desacreditar pessoas ou instituições, pagar favores, perseguir inimigos, encetar campanhas, comprometer-se com ações de propagandas ou servir de trampolim para se atingirem fins velados de natureza pessoal.
A única coisa que o jornalista faz, de forma rigorosa e fundamentada é divulgar fatos atuais de interesse geral - as notícias. Se, eventualmente, tais fatos, desacreditam ou abonam a favor de pessoas ou instituições, é algo que cumpre aos leitores concluírem a partir da leitura dos tais fatos que os meios de comunicação noticiam.

A verdade é que acaba sendo um pouco decepcionante ter que usar as palavras "investir" e "carreira" na mesma frase em que se descreve a prática do jornalista. Pois a mídia, no sistema capitalista, se submete ao mercado. É um bem da vida com valor comercial apurável. Assim, o que interessa mesmo é a versão, nem sempre o fato. Sabe- se que o jornalista se exerce por uma profissão exposta a grandes tentações... A começar pelo salário que, por ser defasado, submete o profissional a prevaricação. Na era em que a informação é dinheiro, custa crer que o interesse econômico se subordinará aos cânones éticos. Mas infelizmente o distanciamento daquilo que parecia ser o sentido democrático original do jornalismo - a liberdade de expressão - faz com que a atividade de jornalista tenha servido muitas vezes para dar continuidade aos projetos do monopólio de políticos e famílias dominantes: assim como a chamada “propriedade cruzada" (quando um mesmo grupo ou família pode ter TV, rádio, jornal e revista, e reforça as relações entre grupos de mídia e as oligarquias tradicionais), em inúmeros casos, principalmente em pequenos municípios, o ‘trono’ é quase hereditário, já que, no geral, as mesmas famílias e políticos obtém todos, ou quase todos, veículos de comunicação.

Moral da história: a lei da ética

É bem verdade que a linha que separa a moral, a lei e a ética é naturalmente muito tênue. No entanto, é preciso entender que cada um desses conceitos trata de situações bem específicas: em termos gerais, a moral se detém à obediência das regras de conduta, costumes e normas universais; as leis se baseiam na moralidade para estabelecer parâmetros de comportamento aos membros de uma sociedade; e a ética é o que orienta as pessoas com o objetivo de se chegar ao bem coletivo a partir das práticas individuais, através da capacidade de cada um de julgar o que é “bom” ou “mau”.

Assim, fica fácil entender que nem sempre o que é legal é ético, do mesmo modo que nem tudo que é ético necessariamente deve ser legal. E é aí que se origina grande parte do esvaziamento da prática do jornalista – uma atividade social que se encontra bem no meio desses conceitos –, por conta da supervalorização das questões legais em detrimento da ética.

Ou seja, no âmbito do jornalismo é muito comum que as medidas ‘corretas’ ou ‘justas’ sejam tomadas muito mais para evitar uma eventual responsabilização criminal e civil (quando muito) do que por se tratar de uma motivação pela ética. Exemplo são os chamados "direito de resposta".

Enfim, para concluir, é preciso entender que mesmo não sendo sempre uma exigência legal, a ética é, sim, algo ‘legal’ de se praticar. E mais legal ainda é que nós, ‘juízes’ legítimos do jogo democrático (o povo), estejamos atentos a esse tipo de prática, já que em muitos casos a tenuidade da situação, além de alguns outros fatores, impede que o pulso da Justiça atue de maneira efetiva.

Em suma, como vivemos em uma sociedade governada pela informação, cabe a nós, pelo menos, enquanto não se abrem ou não se melhoram os caminhos efetivos para uma participação mais direta, no acesso e produção das informações, identificar os veículos de comunicação que não têm os deveres do compromisso e da independência, para assim barrar o projeto deles (empresários da mídia) de se tornarem os donos da verdade para a população, como muitos ainda pretendem ser. Afinal, é o povo quem detém os espaços das rádios e TV’s, e abrem as concessões para terceiros, ocupar estes espaços. Pois, pelo menos em tese, o povo que é o verdadeiro dono da democracia. Em tese.

* O termo mass media é formado pela palavra latina media (meios), plural de medium (meio), e pela palavra inglesa mass (massa). Em sentido literal, os mass media seriam os meios de comunicação de massa (televisão, rádio, imprensa, etc.). Porém, esta denominação sugere que os meios de comunicação são agentes de massificação social, o que nem sempre está de acordo com a realidade social observável.


Pablo Rodrigo Ramos – É jornalista em formação pela UFMT, Membro do Conselho Estadual de Educação – CEE-MT e Membro da Comissão Política do PCdoB - MT

domingo, 17 de abril de 2011

Ainda somos camaradas?

O que significa camaradagem? Significa amizade? Significa irmandade? Significa companheirismo? A semântica, a parte da gramática que estuda o significado das palavras, pode considerar, na sinonímia, um de seus ramos, que são estas palavras com o mesmo significado. Um exemplo simples está na música de Roberto Carlos: “Você meu amigo de fé meu irmão camarada, amigo de tantos caminhos (...) Me lembro de todas as lutas meu bom companheiro, você tantas vezes provou que é um grande guerreiro”.

Isso na gramática, na literatura, na música, na poesia. Em política, não. Especialmente em partidos políticos, também não. Aqui uma palavra tem mais que significados: possuem emblemas e são emuladoras de condutas ideológicas. Portanto, quando se trata de política e ideologia convém ter o máximo de cuidado, especialmente ao ser proferida por um líder. Quando algumas palavras são empregadas na condução política elas podem mostrar como símbolos de que a prática teve outro direcionamento.

Minha intenção com este texto é provocar um debate acerca do novo tratamento que vem sendo introduzido –sub-repticiamente, a meu ver – no seio partidário. Isso me incomoda e tem incomodado a muitos camaradas com os quais venho trocando impressões a respeito.

Tenho como sintomático que junto com essa nova forma de tratamento, que lembra os petistas, tenha havido alguns encaminhamentos coincidentes nos últimos anos. Uma delas foi a decisão do último congresso de introduzir o voto secreto para escolhas das instâncias partidárias. Desprezou-se com isso a prática da honestidade política, com a exposição de posições claras e definidas sobre cada membro-candidato, com a crítica e a autocrítica, com o debate franco, aberto. Jogou-se fora o exercício da camaradagem, em suma.

A nossa anterior forma de escolha das direções partidárias era uma de nossas diferenças políticas ante as práticas burguesas e oportunistas. Era uma das marcas do fazer política com honestidade, sem os vícios maléficos da prática dos partidos tradicionais da política tradicional, antidemocrática. Pretendeu-se ampliar a democracia partidária, mas na prática o que se assiste é o trilhar de um caminho perigoso.

Um exemplo: participei da última conferência regional de Mato Grosso, onde morei, em Cuiabá, até outubro de 2010. O que se viu lá foram manipulação da lista de candidatos, articulações, barganhas e concessões inaceitáveis para um partido político como o nosso. Alguns que desejavam ansiosamente ocupar postos na direção se lançaram a negociações vergonhosas. Por outro lado, municípios que conseguiram mobilizar bancadas maiores, com delegações compostas com recém-filiados eleitos pelo mesmo critério em suas conferências municipais, jogaram mais peso na conferência estadual e foram alvos dessas articulações e barganhas. O que viram esses novos filiados não foi nada diferente do que muitos deles assistiam em seus partidos de origem, alguns oriundos do espectro da direita ou oportunistas de partidos de esquerda (aliás, abandonamos por completo os critérios de aquisição partidária).

Que tipo de educação está dando para esses novos militantes?

Aqui no Distrito Federal, onde nasci e moro atualmente, muitos pensam no partido como um trampolim para cargos nas esferas federal e distrital. Quando cheguei e busquei iniciar minha militância em Taguatinga, cidade-satélite onde resido e onde vivem membros de minha família desde antes da inauguração de Brasília, comecei contatos com vários militantes de lá. Insistia que tínhamos que nos organizar e a resposta que ouvi de muitos, em geral novos filiados, era que se assim o fizéssemos teríamos mais força para conquistar cargos no governo.

Por outro lado estranhei o fato de ter sido ignorado e até desprezado por alguns militantes antigos e membros da direção. Depois descobri que havia o temor de que eu ocupasse o lugar deles. Parece uma bobagem, mas foi isso que ouvi da quase unanimidade das pessoas com as quais me queixei. Quer dizer, antes um novo militante que chegasse com vontade de ajudar a organizar o partido era saudado com alegria e entusiasmo. Hoje ele é visto como concorrente. Como um intruso em seu feudo político.

Outro exemplo absurdo. Quando cheguei há sete meses fui à sede do partido para conhecer e me apresentar aos camaradas. Como sou jornalista me propus ajudar na área de comunicação do partido. O camarada que me atendeu, que é da direção de uma das cidades-satélite, não entendeu nada e mandou-meeu deixar o currículo, pois se tivesse algum deputado ou senador do partido precisando de jornalista ou se tivesse alguma vaga no governo Agnelo ou no governo Dilma me chamariam. Ora, eu estava ali me colocando como militante e não procurando emprego! Quando voltei para Brasília vim com emprego e sou remunerado o suficiente para me manter e a minha família. Depois descobri que essa era a rotina da sede do PC do B: receber diariamente dezenas de pessoas pedindo emprego. Era novembro de 2010, Dilma e Agnelo tinham acabado de vencer no segundo turno e os nossos novos filiados e até antigos militantes estavam todos afoitos, enlouquecidos em busca de uma boquinha nos governos federal e distrital.

Que tipo de educação estamos dando para nossa militância?

Aliás, onde está a nossa militância em Brasília? Não a temos organizada. O partido no Distrito Federal não tem organização nenhuma. Pelo menos do tipo leninista que aprendemos e defendemos. Ou teremos que também abandonar esse tipo de organização para abraçarmos a outra forma que leva muitos a só desejar cargos nos governos e se apegar às direções?

Expressei minha preocupação a um antigo militante partidário, que foi parlamentar e membro do Comitê Central. A sua resposta foi tão desanimadora como assustadora: “Sabe aqueles bancos que não têm agências para atender as pessoas? São chamados de ‘bancos aéreos’, que ficam nos andares superiores dos edifícios e só cuidam de investimentos? Então, o PC do B aqui é assim. Não precisa de bases”. Inacreditável, mas foi o que o camarada me respondeu.

O nosso partido está se conduzindo por um fisiologismo puro e simples. É cruel a constatação, mas só não vê quem não quer. O documento que conclama o Encontro sobre Questões do Partido, trata, a meu ver, eufemisticamente desse tema. È certo que tais preocupações ocupam o Comitê Central, em especial a Secretaria de Organização. A iniciativa é de extrema importância para a organização partidária. Mas penso que esse debate tem que ser mais aberto.

É sintomático, por exemplo, a prática sempre recorrente dentro de nosso partido em relação às alianças políticas e as negociações de cargos. É lícito exigir cargos numa negociação política? Sim, é! Somos um partido político, uma força política e se estamos nessa atuação institucional é legítimo termos a responsabilidade por também governar. Mas isso não pode ser a única finalidade em nossa prática política cotidiana.

Acredito que todos esses direcionamentos que o PC do B vem adquirindo não contribuem para a construção do novo homem que tanto defendemos. Ou não defendemos mais isso?

É nesse bojo que vem a insistência de alguns camaradas, infelizmente do Comitê Central, em trocar o nosso tratamento para “companheiros e companheiras”

Quando os reformistas em 1961 acabaram com o Partido Comunista do Brasil e criaram o Partido Comunista Brasileiro, que significado adquiriu a palavra “brasileiro” aí? Ela foi o emblema das novas posturas políticas e ideológicas dos antigos camaradas. Se não o fosse, nossos verdadeiros camaradas não teriam reorganizado o Partido Comunista do Brasil em 1962, resgatando o “do Brasil”. Parece simples? Mas seria conveniente observar toda a simbologia do resgate desse nome. Quando a Ação Popular teve que incorporar a composta “marxista-leninista” em seu nome, que significado teve esse novo nome na gloriosa organização que viria mais tarde se incorporar ao PC do B em 1972?

Quando deixamos de ser camaradas e passamos a ser “companheiros”, como Lula chama seus colegas de partido e até o grande empresariado com o qual se articulou ou não em seu governo, que significado tem isso? É uma bobagem? É algo subjetivo? É saudosismos dos que, como eu, ingressaram no partido ainda no final da década de 70?

Penso que, mais que a questão semântica trata-se uma inflexão que abriga uma estratégia que ainda não entendi e por ainda não entender fico imaginando ser uma nova conduta política e ideológica. E, o mais grave, uma nova orientação que não está sendo discutida abertamente dentro do partido. E isso é desonesto para com o conjunto da militância. É, em suma, um desvio ideológico e um emblema dos métodos de direção que transparece no cotidiano partidário.

Se continuarmos assim, logo deixaremos de ser o “Partido do Proletariado” e passaremos a ser o “Partido dos Trabalhadores”. Do ponto de vista da semântica não há problema nenhum.

João Negrão, militante do PC do B