Como disse em meu último artigo, violência não rima com desenvolvimento e nem com democracia.
E os acontecimentos ocorridos em Cuiabá – capital do Estado que por vezes se proclama, com orgulho, ser o “celeiro do mundo” – são incompatíveis com os princípios democráticos que tanto ouvimos falar e, juramos, exercitar. O motivo, o destino da água!
Refletindo sobre os fatos, fui buscar na história, explicações para entender o presente. Foi incrível descobrir que a água, segundo Elizabeth Madureira, já foi considerada um dos aspectos de modernização da Cuiabá do século XIX; suas fontes públicas representaram “um importante espaço social, local de encontros e de desencontros, de lazer e de prazer"
Hoje, água cá prá nós, é sinônimo de conflitos, violência e falta de democracia. Infelizmente, os principais atores nesse cenário são membros do executivo e do parlamento municipal. Antagonistas do povo. Pelo menos nessa contenda. Eu, particularmente, diria que em muitas outras, mas atenho-me a essa.
Assistindo a uma entrevista do prefeito de Cuiabá, Chico Galindo, a um canal de televisão, enquanto ouvia sua argumentação e contemplava sua expressão plácida, referindo-se à privatização da água, me lembrei da virtù, de “O Príncipe” e a partir daí estabeleci algumas comparações e similaridades, num exercício peculiar e particular.
Antes com o autor da obra, Nicolau Maquiavel que viveu em um período de transição, da Idade Média pra Idade Moderna, a Renascença, quando a técnica e a conquista científica, aliadas a efervescência cultural ganharam importância e, consequentemente, trouxeram grandes transformações.
Galindo vive e é gestor em uma capital brasileira, num momento – um recém inaugurado século XXI – em que uma “janela” se abre com a perspectiva de transformação ampla, como diz Márcio Pochmann. Ou seja, num momento em que a retomada de um novo projeto nacional de desenvolvimento coloca as cidades num patamar onde conquistas sociais e econômicas interagem e, aliados ao desenvolvimento científico e tecnológico, podem trazer melhorias para a qualidade social de vida de seus munícipes.
Comparações com a obra: A primeira diz respeito ao modo como um príncipe conquista o principado: “com armas alheias ou próprias, por sorte ou mérito”. Galindo, eu diria, foi com armas alheias e sorte, ou a falta dela, já que Wilson Santos era o príncipe, digo, prefeito.
Outra é que “Sorte e vontade são duas coisas volubilíssimas e instáveis. E, apesar disso, tais príncipes não sabem e não podem manter o governo: Não sabem porque não são homens de grande engenho e virtude e não é aceitável que, administrando sempre interesses privados, entendam a coisa pública”. Eis aí outra das similaridades. Não é de hoje que estamos convivendo, entre outras coisas, com a questão da débil coleta do lixo, do transporte coletivo de péssima qualidade e essa eterna “novela” da água em Cuiabá. É óbvio que esses problemas não tiveram início neste governo, mas sem dúvida nenhuma, vem se agravando fortemente.
Ao mesmo tempo, recebemos consternados, mais uma vez, a notícia de que o município está perdendo milhões de investimentos do PAC por conta dessa concepção privatista neoliberal emanada da prefeitura para a Sanecap. São os interesses privados sobrepondo-se ao público. E quando a coisa aperta quem paga a conta são os trabalhadores, que já estão sendo demitidos.
Sobre as estratégias de ataque e defesa dos principados Maquiavel analisa: “Já está evidenciado como um príncipe necessita de sólidas bases para que não se arruíne”. Ele discorre, então, sobre os exércitos de mercenários e as tropas auxiliares. Sobre os primeiros ele diz que não oferecem garantia e sossego ao príncipe porque “são desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiéis, garbosas perante os amigos e covardes diante dos inimigos”. Já os segundos, “são quase sempre danosas aos que a utilizam, porque, se derrotadas, derrotados estão as que a utilizam e se saírem vitoriosas passam a dominar as que as solicitaram”. E essa parece ser a relação estabelecida entre o prefeito e a ampla maioria de vereadores de Cuiabá, no episódio da Sanecap.
Arregimentados por Galindo – não sei bem em que bases – os vereadores infringiram todos os preceitos democráticos. Votaram a matéria da privatização e não discutiram, nem ouviram a população, reagiram com violência e força policial a todas as manifestações do povo e criminalizaram ações de quem se mostrasse contrários aos seus interesses. Agiram como o verdadeiro exército acima descrito. Restando saber, qual o grau de “garantia” e “sossego” que propiciaram ao prefeito e vice-versa.
Por fim, dois destaques ainda sobre a obra: “Acentuei que o príncipe deve evitar atos que o tornem odioso e desprezível e sempre que assim o fizer estará agindo com acerto” e “O que mais contribui para que um príncipe seja estimado é a realização de grandes empreendimentos e a prática de atos edificantes”. Em minha opinião, Galindo e os vereadores de Cuiabá perderam uma ótima oportunidade de evitar a aversão popular e realizarem grandes feitos e atos edificantes. Tudo isso com “chapéu alheio”! Ou seja, com recursos do PAC, do governo estadual e o empenho da Agecopa.
Entretanto, salvos temporariamente pelo povo rebelado e pelo Ministério Público, ainda a tempo de reconsiderarem. Basta recuarem, independente da decisão judicial.
Marilane Costa – Mestre em Educação; Professora do IFMT – Integrante do Grupo de Pesquisa As vicissitudes da Civilização Brasileira (IFMT/UFMT/UNEMAT); Membro da Direção Estadual do PCdoB. laneacosta@gmail.com
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
terça-feira, 2 de agosto de 2011
VIOLÊNCIA NÃO RIMA COM DESENVOLVIMENTO
Nos últimos tempos, venho expressando, cada vez mais, meu interesse em discutir a questão do desenvolvimento, mais acentuadamente, o de Mato Grosso. Isso vem se traduzindo através de projetos de pesquisas apresentados, artigos e eventos realizados.
Para quem chegou há 25 anos e resolveu aqui se assentar, fazendo – conscientemente – deste Estado sua opção de educação e trabalho, de convivência social e política, esse é um longo percurso.
Não precisaria dizer novamente o que me fez adotar Mato Grosso como a “minha terra”, “meu ponto de partida e meu ponto de chegada”, mas é sempre bom reforçar que foi o seu povo alegre e expansivo; a sua cultura permeada de sincretismos, das festanças, dos festivais; o calor humano e do sol de mais de 40º em novembro; suas águas no rio Coxipó e no Cuiabá, no Araguaia, no Paraguai, Rio Vermelho, Teles Pires ou Guaporé que me fizeram aqui ficar.
Quando penso nessa diversidade, fico mais convencida ainda de que devemos nos lançar na tarefa de contribuir para que no decorrer do século XXI este Estado supere suas debilidades e se edifique democrático, com superação das graves desigualdades, valorização do trabalho, emancipação das mulheres, proteção ao meio ambiente, com saúde, educação, cultura e lazer para todos.
Entretanto, pensar o desenvolvimento de Mato Grosso fica embotado quando temos que lidar, ainda, com a prática retrógrada da violência: cotidiana, escancarada ou silenciosa, histórica e, de difícil superação. Nos últimos tempos, voltamos a assistir a exacerbação de diferentes formas de violência retratadas nos meios de comunicação.
O nosso histórico e relação com o que chamo de violência são desconcertantes. Como não sou uma estudiosa do tema, mas sim uma “palpiteira”, remonto memórias de uma época (de minha chegada em Mato Grosso), em que a população vivia assustada com crimes cometidos por cidadãos do próprio estado, que devia protegê-los. O Portão do Inferno, diziam antigas histórias, era desova de desafetos. Enquanto isso, crimes de violência doméstica, contra a mulher, assaltos, roubos, assassinatos de toda ordem, chacinas e execuções continuaram acontecendo.
A luta pela redemocratização do país, a intensa participação dos movimentos sociais, o enfrentamento ao neoliberalismo, entre outros eventos, permitiram que gradativamente, Mato Grosso fosse virando essa página. Tanto que denúncias de trabalho escravo e infantil foram libertando homens, mulheres e crianças de uma vivência degradante. As chacinas foram condenadas veementemente pela população. A polícia foi se humanizando. Houve um período de um legítimo aceno para uma cultura de paz.
Os últimos acontecimentos, entretanto, me remetem a duas obras: uma do escritor italiano Norberto Bobbio “O futuro da democracia” e outra de Edson Teles e Vladimir Safatle “O que resta da ditadura”.
Na primeira, Bobbio diz que “a democracia não goza no mundo de ótima saúde, como de resto jamais gozou no passado, mas não está à beira do túmulo”. Isso significa dizer que, algumas práticas de violência precisam ser coibidas imediatamente, pois as mesmas não condizem com o exercício democrático que nos lançamos no Brasil nas últimas três décadas.
Sobre essas práticas de violência ocorridas nos últimos meses em Mato Grosso, cito entre outras, a agressão sofrida por uma jornalista, no exercício da profissão, em Pontes e Lacerda, praticada por um vereador do município; o assassinato do prefeito de Novo Santo Antônio; o assassinato do jornalista Auro Ida em Cuiabá (independente da motivação do crime: passional ou, mais grave ainda, político); a ameaça de punição feita pelo presidente da Câmara Municipal de Cuiabá, vereador Júlio Pinheiro ao vereador, Lúdio Cabral, que vem se colocando contrário aos privatistas da SANECAP e, a violência emanada do poder municipal contra os manifestantes que querem apenas “água”!; a violência simbólica contra os movimentos sociais e, mais especificamente, contra o movimento sindical que vem tendo todas as suas ações reivindicatórias criminalizadas e consideradas ilegais neste Estado, quando trabalhadores lutam pela valorização do trabalho, condição imprescindível para qualquer processo de desenvolvimento.
Considero, portanto, que o futuro de nossa democracia fica comprometido quando essas violências pairam sobre nós. E é aí que a frase de Edson Teles ganha significado, para além de sua abordagem sobre a ditadura quando escreve Entre a Justiça e a Violência: “(...) não eliminaremos as balas perdidas se não apurarmos a verdade dos anos de terror de Estado de modo a ultrapassarmos certa impunidade. Pois a bala perdida é, como o silêncio e o esquecimento, o ato sem assinatura pelo qual ninguém se responsabiliza”.
Consideremos “bala perdida” a título deste artigo, todas essas práticas violentas, antidemocráticas, retrógradas e que buscam intimidar quem ousa levantar vozes contrárias ao velho, ao decadente. Isso por certo, não rima com o desenvolvimento pretendido pelo povo mato-grossense.
Marilane Costa - Mestre em Educação; Professora do IFMT – Integrante do Grupo de Pesquisa As vicissitudes da Civilização Brasileira (IFMT/UFMT/UNEMAT); Membro da Direção Estadual do PCdoB. laneacosta@gmail.com
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Para quem chegou há 25 anos e resolveu aqui se assentar, fazendo – conscientemente – deste Estado sua opção de educação e trabalho, de convivência social e política, esse é um longo percurso.
Não precisaria dizer novamente o que me fez adotar Mato Grosso como a “minha terra”, “meu ponto de partida e meu ponto de chegada”, mas é sempre bom reforçar que foi o seu povo alegre e expansivo; a sua cultura permeada de sincretismos, das festanças, dos festivais; o calor humano e do sol de mais de 40º em novembro; suas águas no rio Coxipó e no Cuiabá, no Araguaia, no Paraguai, Rio Vermelho, Teles Pires ou Guaporé que me fizeram aqui ficar.
Quando penso nessa diversidade, fico mais convencida ainda de que devemos nos lançar na tarefa de contribuir para que no decorrer do século XXI este Estado supere suas debilidades e se edifique democrático, com superação das graves desigualdades, valorização do trabalho, emancipação das mulheres, proteção ao meio ambiente, com saúde, educação, cultura e lazer para todos.
Entretanto, pensar o desenvolvimento de Mato Grosso fica embotado quando temos que lidar, ainda, com a prática retrógrada da violência: cotidiana, escancarada ou silenciosa, histórica e, de difícil superação. Nos últimos tempos, voltamos a assistir a exacerbação de diferentes formas de violência retratadas nos meios de comunicação.
O nosso histórico e relação com o que chamo de violência são desconcertantes. Como não sou uma estudiosa do tema, mas sim uma “palpiteira”, remonto memórias de uma época (de minha chegada em Mato Grosso), em que a população vivia assustada com crimes cometidos por cidadãos do próprio estado, que devia protegê-los. O Portão do Inferno, diziam antigas histórias, era desova de desafetos. Enquanto isso, crimes de violência doméstica, contra a mulher, assaltos, roubos, assassinatos de toda ordem, chacinas e execuções continuaram acontecendo.
A luta pela redemocratização do país, a intensa participação dos movimentos sociais, o enfrentamento ao neoliberalismo, entre outros eventos, permitiram que gradativamente, Mato Grosso fosse virando essa página. Tanto que denúncias de trabalho escravo e infantil foram libertando homens, mulheres e crianças de uma vivência degradante. As chacinas foram condenadas veementemente pela população. A polícia foi se humanizando. Houve um período de um legítimo aceno para uma cultura de paz.
Os últimos acontecimentos, entretanto, me remetem a duas obras: uma do escritor italiano Norberto Bobbio “O futuro da democracia” e outra de Edson Teles e Vladimir Safatle “O que resta da ditadura”.
Na primeira, Bobbio diz que “a democracia não goza no mundo de ótima saúde, como de resto jamais gozou no passado, mas não está à beira do túmulo”. Isso significa dizer que, algumas práticas de violência precisam ser coibidas imediatamente, pois as mesmas não condizem com o exercício democrático que nos lançamos no Brasil nas últimas três décadas.
Sobre essas práticas de violência ocorridas nos últimos meses em Mato Grosso, cito entre outras, a agressão sofrida por uma jornalista, no exercício da profissão, em Pontes e Lacerda, praticada por um vereador do município; o assassinato do prefeito de Novo Santo Antônio; o assassinato do jornalista Auro Ida em Cuiabá (independente da motivação do crime: passional ou, mais grave ainda, político); a ameaça de punição feita pelo presidente da Câmara Municipal de Cuiabá, vereador Júlio Pinheiro ao vereador, Lúdio Cabral, que vem se colocando contrário aos privatistas da SANECAP e, a violência emanada do poder municipal contra os manifestantes que querem apenas “água”!; a violência simbólica contra os movimentos sociais e, mais especificamente, contra o movimento sindical que vem tendo todas as suas ações reivindicatórias criminalizadas e consideradas ilegais neste Estado, quando trabalhadores lutam pela valorização do trabalho, condição imprescindível para qualquer processo de desenvolvimento.
Considero, portanto, que o futuro de nossa democracia fica comprometido quando essas violências pairam sobre nós. E é aí que a frase de Edson Teles ganha significado, para além de sua abordagem sobre a ditadura quando escreve Entre a Justiça e a Violência: “(...) não eliminaremos as balas perdidas se não apurarmos a verdade dos anos de terror de Estado de modo a ultrapassarmos certa impunidade. Pois a bala perdida é, como o silêncio e o esquecimento, o ato sem assinatura pelo qual ninguém se responsabiliza”.
Consideremos “bala perdida” a título deste artigo, todas essas práticas violentas, antidemocráticas, retrógradas e que buscam intimidar quem ousa levantar vozes contrárias ao velho, ao decadente. Isso por certo, não rima com o desenvolvimento pretendido pelo povo mato-grossense.
Marilane Costa - Mestre em Educação; Professora do IFMT – Integrante do Grupo de Pesquisa As vicissitudes da Civilização Brasileira (IFMT/UFMT/UNEMAT); Membro da Direção Estadual do PCdoB. laneacosta@gmail.com
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quinta-feira, 21 de julho de 2011
O Corrupto da Vez
Não consegui entender o "linchamento" moral e político do diretor do DNIT Luiz Antonio Pagot mesmo depois de sua fala no Senado e na Câmara. Depoimento realizado de forma espontânea publica e no fórum adequado. O que esperavam dele? Um depoimento sensacionalista, leviano cheio de insinuações a moda da revista Veja sem provar nada?
Bobagem isso não aconteceu nem quando o congresso promoveu um verdadeiro festim de encenações histriônicas quando alguns parlamentares de oposição ao governo Lula interrogavam os depoentes com um fervor digno de um espetáculo teatral de circo mambembe. Por ironia da historia os que apareceram naquele momento como arautos da moralidade publica permanecem como parlamentares inexpressivos. E segundo reportagem da revista Carta Capital tentando sofregamente passar para a base do governo Dilma.
Quem analisar sem paixão o seu longo depoimento nas duas casas perceberá que ele se ateve a dois eixos de argumentação: o primeiro é que todas as decisões eram colegiadas e o segundo era o que de todos os procedimentos eram fiscalizados e acompanhados pelas instituições designadas para esses fins. Com dados objetivos foi sendo mostrado aos congressistas detalhes de como estavam sendo tratado cada um dos problemas apontados. Não me lembro de nenhuma contestação relevante ao que foi apresentando por nenhum parlamentar das duas casas. Alem do mais nenhuma pergunta ficou sem resposta.
O que interessa agora é saber se os seus argumentos são verdadeiros ou falsos.
Com o fortalecimento da sociedade civil pós ditadura foram sendo criadas, ou fortalecidas, instituições de regulação e controle que tem o papel de inibir que corporações, empresas ou indivíduos em articulação com os grupos políticos - ideológicos no poder se beneficiem indevidamente da massa de recursos financeiros posto a disposição da sociedade pelo Estado. Recursos que devem servir a implementação de políticas publicas e de investimento e custeio da estrutura do estado. E o caso de órgãos como os Tribunais de Contas, do Ministério Publico e das Controladorias. Se não funcionam é o caso de perguntar com já se fazia no século XIX quem vigia o vigia quando esta em pauta os interesses econômicos em uma sociedade organizada segundo regras inspiradas no liberalismo econômico, social e político.
Quando cursava o ensino médio lá pelos anos sessenta do século XX estudando a revolução francesa aprendi com a trajetória de Robespierre que essa historia da condenação da corrupção de forma emocional pode conduzir a julgamentos que desprezam os fatos, produzindo injustiças e no limite ao arbítrio do terror. Lembro que por essa época, para ser mais preciso Dezembro de 1968, um dos argumentos para o AI-5 era o combate a corrupção. O que se viu depois foram anos de arbítrio e de corrupção.
Outro dado importante em seu depoimento foi o de que essa autarquia vem sofrendo um acelerado processo de precarização de seus quadros técnicos em contrapartida a ampliação de suas responsabilidades e da grandiosidade das tarefas que lhe estão atribuídas. Ninguém lhe contestou. É bom lembrar que esse processo de precarização dos aparatos estatais é o resultado de uma visão político - ideológica que considera que investir na profissionalização do funcionalismo contratando quadros técnicos qualificados e com salários compatíveis com sua formação é desperdiçar o dinheiro publico, é inchar a maquina do estado.
É evidente que corporações, empresas e indivíduos financiem candidaturas identificadas com seus interesses políticos e econômicos. As chamadas bancadas de interesses como a ruralista, para falar só de uma das mais conhecidas, tem suas candidaturas e os seus partidos financiados prioritariamente por esse setor da economia. Com a construção civil não é diferente.
É republicano e democrático que corporações, empresas e indivíduos financiem os partidos e as candidaturas, nos limites e parâmetros da legislação, que contemplem seus interesses. A não ser que se mudem as regras atuais de financiamento de campanhas e elas passem a ter financiamento publico. Fazer de conta que isso não acontece, ou não existe é ingenuidade ou hipocrisia.
Não sei qual o propósito ou o alcance da tal “faxina” que a presidenta Dilma afirma que está realizando no ministério dos transportes. Tudo bem mãos a obra presidenta. Agora em que lugar ele vai encontrar a legião de anjos, acima do bem e do mal, tecnicamente neutros capazes de tomarem decisões justas e desinteressadas sem qualquer viés político ou econômico é que vai ser difícil. Sem novidades.
Tudo bem concluído o “fora Pagot” logo, logo outro grande corrupto vai estar na vitrine para a execração dos incorruptíveis de plantão nas redes sociais, blogs e mídia de oposição ao governo. Bom mas isso faz parte do jogo de aparências e das querelas ideológicas. A questão agora é saber quem será o herdeiro deste espolio que o PL esta deixando escapar de sua área de influencia política
O resto é cretinice do jornalismo denuncista da Veja, Folha de SP Estadão e Globo
Manoel F V Motta - Professor da UFMT
sexta-feira, 8 de julho de 2011
OS TRABALHADORES E A FÓRMULA GLOBAL DE CONQUISTAR UM REAJUSTE SALARIAL
Depois de anos de experiências diversas nas lutas e movimentos dos trabalhadores por melhores condições de vida e trabalho, chego hoje a conclusão de que estava totalmente equivocado. Que não havia necessidade de tantos enfrentamentos, greves, embate com as forças de segurança, sindicato, etc., pois, tudo poderia ter-se resolvido com uma simples conversa amistosa, mansa e delicada entre patrão e empregado. Sim, é isso que uma dupla de apresentadores de um telejornal da Globo, nesta manhã de inverno mato-grossense, me jogou impunemente na cara como ensinamento.
A reportagem foi bem urdida, inclusive plasticamente. Uma moça esguia, bonita, de fala fluente e bem articulada é apresentada em um escritório como funcionária deste, insatisfeita com os seus vencimentos e disposta a reclamar ao seu chefe aumento salarial. A repórter recorre a um “especialista” (que Gramsci identificaria como intelectual orgânico do Capitalismo) em recursos humanos para recolher deste, orientações sobre como deveria proceder um trabalhador para pedir e receber aumento salarial. O “especialista” dá diversos conselhos: não se emocionar, não falar dos seus problemas, falar da sua contribuição para o crescimento e sucesso da empresa, etc.; e, caso o patrão lhe respondesse com um sonoro não, alegando falta de condições financeiras para conceder o reajuste, o trabalhador não deveria se revoltar, mas perguntar ao patrão o que ele (empregado) deveria fazer para que a empresa crescesse, melhorasse o seu faturamento (lucro) e, assim, tivesse as condições para lhe atender ao pedido.
Os professores das redes municipais de ensino de alguns municípios mato-grossense fizeram greve este ano por reajustes salariais, os da rede estadual estão em greve, os bombeiros de diversos estados da Federação fizeram greves com graves enfrentamentos, os funcionários da SEMA-MT fizeram greve, os da Saúde Pública, também; diversas outras categorias ameaçam paralisar suas atividades por melhores salários e outras reivindicações. Segundo a reportagem todos esses estão equivocados, não é assim que se consegue ter as reivindicações atendidas; bastaria um diálogo manso, delicado, individual, sem tumulto, sem assembléias barulhentas, sem passeatas, etc., para que seus respectivos patrões, públicos ou privados, atendessem as suas reivindicações. Entretanto, caso os patrões não pudessem atender, os trabalhadores deveriam indagar candidamente sobre o que eles deveriam fazer para melhorar as condições econômicas da empresa e, assim, terem suas reivindicações atendidas mais tarde.
A reportagem é um deboche com a história e com a inteligência dos trabalhadores, tal como fazia Delfim Neto quando ministro da Fazenda no governo dos militares: o ilustre intelectual do Capital dizia que era necessário fazer o “bolo” (a economia) crescer para depois reparti-lo com todos. De fato, o bolo cresceu, por obra e sacrifício dos trabalhadores brasileiros, mas quem o comeu não foram os trabalhadores e sim os grandes empresários, os grandes proprietários rurais e donos de bancos, dos quais Delfim era preposto. Agora, de forma melodramática tentam nos convencer de que a sociedade não está dividida entre os que tem e os que não tem a propriedade dos meios de produção, de que os interesses dos empresários são os mesmos interesses dos trabalhadores, aliás, que não existe trabalhadores, mas “colaboradores” e que, portanto, não há a necessidade destes se organizarem em sindicatos, associações, etc., para reivindicar melhores condições de vida e trabalho. A reportagem extingue, com meia dúzia de palavras ensaiadas pela jornalista-atriz e com cenas comoventes como se de um filme de Akira Kurosawa, a luta de classes, a mais valia e a natureza, enfim, do Capitalismo. Quê fazer?
Lembrei-me de uma entrevista dada por Professor Paulo Freire a uma revista de circulação nacional, quando questionado sobre o poder que a fala, o discurso, de um professor-educador teria diante da força de um meio de comunicação de massa, capaz de “fazer a cabeça” de milhões de pessoas ao mesmo tempo no Brasil inteiro. Com a sua serenidade característica Paulo Freire respondeu (palavras minhas) que aquele meio de comunicação, por mais abrangente e poderoso que fosse não poderia seqüestrar a realidade em sua totalidade, de modo que, apenas como parte da realidade ele era cognoscível e, assim, podia ser re-conhecido, interpretado e reduzido à sua condição de instrumento da dominação. A fala do saudoso professor faz aflorar mais a necessidade que a maioria da sociedade brasileira tem de uma escola vinculada aos seus interesses, às suas necessidades e, portanto, de professores-educadores capazes e comprometidos com suas funções de intelectuais orgânicos dessa maioria. Essa perspectiva exige professores-educadores com uma determinada competência, competência que, para além de formar gente para o “mercado”, seja capaz de elevar intelectualmente essa gente para uma compreensão superior da realidade e, desse modo, inserirem-se conscientemente no processo de recriação material e espiritual da sociedade em que vivemos.
Elismar Bezerra - Ex Secretario de Cultura de Mato Grosso e mestrando em educação na UFMT
sexta-feira, 3 de junho de 2011
MULHER E PODER
Convidada para contribuir com o II Congresso Estadual da União Brasileira de Mulheres – UBM/MT –, “Mulher, Poder e Trabalho”, ocorrido no dia 21 de maio, numa mesa nominada “Mulheres e Poder Político – Panorama Nacional e Estadual” refleti que, no campo filosófico pondera-se como estabelecemos a relação entre política e poder; poder, força e violência; autoridade, coerção e persuasão; origem, natureza e significação do poder. E mais, se política, de forma simplificada, pode ser entendida como “luta pelo poder”, então estamos falando de “conquista, manutenção e expansão do poder”. Para que se exerça o poder, é preciso “força”.
Partindo desse pressuposto, poderia fazer uma abordagem teórica acerca das diferentes correntes de pensamento sobre a temática, uma vez que, ao responder essas questões, cada corrente o fará expressando suas concepções. Essa abordagem é importante, mas julguei-a desnecessária para o momento proposto.
Mais importante, pra mim, naquele momento, era discutir com as mulheres que todos nós, em cada espaçozinho que vivemos disputamos o poder. O poder de... A tendência é que as pessoas rejeitem e neguem que o poder, mesmo nas suas relações cotidianas: pais e filhos, companheiro e companheira, professor e aluno, empregador e trabalhador.
Também julguei importante destacar o artigo A Crise do Homem, do jornalista José Carlos Ruy, na revista Presença da Mulher de 1993. Nele, Ruy reconhece que as mulheres são pioneiras e donas da iniciativa de redefinir papéis, de superar “o script tradicionalmente reservado à mulher”. Essa mudança nos scripts a que ele se refere, vem acontecendo em larga escala. Em se tratando Em se tratando de poder, estamos na fase da manutenção e expansão, dialeticamente falando, na fase da conquista. Como diz Elza Campos, Coordenadora Nacional da UBM: “É um marco na efetiva busca pela ampliação dos espaços de poder em todas as organizações da sociedade”.
O Congresso da UBM ocorre num momento impar, o primeiro após a eleição e posse da primeira mulher presidente do Brasil, A eleição de Dilma é resultado de uma série de fatores, mas também de uma vitória do movimento feminista e, mais especificamente emancipacionista, que formou novas mentalidades. Mais significativo ainda, é perceber que a UBM dá centralidade, em seu congresso nacional, as discussões sobre a participação da mulher e o Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento. E essa foi a minha linha de abordagem: discutir a questão da mulher no Estado de Mato Grosso e a sua participação política passa,
obrigatoriamente, por discutir o desenvolvimento.
Abri mão da exposição do panorama nacional quantificando a participação da mulher por verificar que o mesmo já é de conhecimento amplo e que a participação política das mulheres é imensa, propositiva e em todas as esferas. Comungo, porém, com a Resolução do Seminário As Mulheres e a Reforma Política ao observar que apesar de todos os saltos qualitativos, as mulheres continuam “sub-representadas em relação ao potencial de nossa atuação política”. A Resolução questiona: Até quando o Brasil (acrescento, Mato Grosso) vai conviver com alta participação das mulheres no eleitorado e nas lutas sociais e baixa inserção das mulheres nos espaços de poder?
Em 2008, a pesquisa de Michelli Burginsk (atualmente professora da UFT) constatou que a cultura política em Mato Grsso ainda é a de submissão, ancorada na divisão sexual do trabalho na sociedade; e em fatores familiares e domésticos. Ou seja, mulheres que “ascenderam pela via familiar, particularmente a marital” elegeram-se diretamente ao parlamento federal, as que tiveram suas trajetórias forjadas a partir dos movimentos sociais, o fizeram gradativamente: vereadora, deputada estadual, deputada estadual ou senadora. Já naquele momento, identificava-se uma queda na participação e representação feminina em cargos eletivos. De lá pra cá, esses números diminuíram mais. O cenário no Estado nos remete a considerações desfavoráveis quanto à representação nos espaços de decisões políticas e nos partidos políticos.
Contudo, na tentativa de preenchimento de vagas, muitos partidos têm driblado a legislação. Segundo Michelli, legendas têm utilizado a figura das “mulheres- laranjas”, que não possuem vida orgânico-partidária para compor a cota exigida pela lei. “O interessante é que muitas nessa situação acabam se elegendo”. Isso se aplica, principalmente, nas disputas das câmaras municipais, uma vez que os avanços da mulher na política são mais visíveis nas eleições municipais.
Sem entrar na discussão de classe, da representação e compromissos de classe, destaco que Bia Spineli, Lueci Ramos, Vera Araújo, Chica Nunes, Celcita Pinheiro, Teté Bezerra, Thelma de Oliveira, Serys, Iraci França e Teresinha Maggi são nomes do legislativo e executivo que estiveram em foco, mas por diversas razões vão sendo, gradativamente, “apagadas” desse cenário. Ousaria dizer que – sem entrar em questões internas de partido –, Serys é um exemplo claro de mulher que disputa, violentamente, o poder de dirigir um partido no estado. “O campo político não é somente masculino devido à majoritária presença dos homens, mas porque antes de tudo, traz uma simbologia identificada com os valores masculinos. Além do mais, o ato de comandar e de tomar decisões tem sido historicamente atributos imputados aos homens”.
Algumas atuações e representações nesses espaços, em nosso Estado, foram subsumidas por orientações masculinas, as mulheres se tornaram meros instrumentos. As desigualdades de gênero se refletem nas práticas políticas internas dos partidos. “Historicamente os partidos políticos permaneceram fechados à representação das mulheres”.
Considerando como espaços de poder mais que o parlamento, executivo, judiciário, mas todas as instâncias e instituições sociais, com condições de intervir na transformação da sociedade defendo que as mulheres no Mato Grosso tomem como tarefa um amplo debate sobre o Modelo de Desenvolvimento. Debatê-lo permitirá que conheçam melhor o processo histórico em que se formou o Estado; os modelos de produção que se conflitam: agronegócio e agricultura familiar; questões de trabalho, renda, emprego e economia solidária; a economia do Estado; saúde, educação: inclusiva, não sexista, não homofóbica; a cultura e a mídia; reforma urbana e meio ambiente; a luta contra a violência doméstica e familiar. Isso é a grande política! Articulada de forma tal que, permitirá às mulheres se recolocarem no centro do debate, ocupando espaços sociais e de representação política, indubitavelmente
MarilaneCosta - Mestre em Educação; Professora do IFMT – Integrante do Grupo de Pesquisa As vicissitudes da Sociedade Brasileira (IFMT/UFMT/UNEMAT); Membro da Direção Estadual do PCdoB. laneacosta@gmail.com
quarta-feira, 18 de maio de 2011
A onda
O espetáculo que se descortinou à nossa frente
vai muito além de qualquer imaginação.
Qualquer imagem é mais do que eloquente
e o assombro é total perante tal demonstração
De uma tsunami, nada está salvo.
Ela não tem necessidade de alvo.
Não há uma contra-força que a enfrente;
nem mesmo os delírios de uma mente.
A força sísmica que se repete com frequência
não vê obstáculos que venham a lhe fazer frente.
Resta apenas amenizar suas consequências
Expondo, assim, nossa fragilidade inteiramente.
Ondas indomáveis e gigantescas
brincam com navios como se fossem brinquedos.
É uma visão pavorosa e dantesca
encontrar-se no meio deste enredo.
A onda... Como evitá-la?
Existe forma de denominá-la?
Como poderia classificá-la?
Haveria alguma forma de amainá-la?
A água deixa de ser líquida e vira um muro gigantesco.
Parece que com as outras catástrofes não tem parentesco.
Só o medo mobiliza nesta situação,
e voltar ao normal passa a constituir-se em uma obsessão.
É possível desvendá-la, conhecê-la,
porém, não há como mudá-la.
Não há como puni-la, convencê-la.
Resta somente aceitá-la.
Não há sorrisos em sua ação.
Tudo é monstruoso.
Seu poder é fabuloso,
despertando medo e comoção.
Ultrapassa qualquer expectativa.
Vai muito além de nossa capacidade previsiva.
Os litorâneos vivem o temor de que um dia chegará,
sem avisar, sem pedir licença ou alvará.
A razão a explica conformada,
pouco importa se de forma real ou deformada.
Nem adianta estar preparado,
porque, na hora, algo pode dar errado.
Tudo isso ultrapassa a razão.
Explicar não basta.
Ela tudo devasta,
no caminho de seu arrastão.
Diante dessa demonstração colossal,
o sofrimento é apenas um componente da paisagem.
Tudo é destruído com extrema voragem,
diante de sua vazão descomunal.
Não há como construir o solo onde se pisa
Não há firmeza no solo que ela visa.
Parece que vivemos em uma nau instável.
Tudo aos nossos pés é mutável
Dor não combina com revolta nesses momentos.
Só o fato de estar vivo já é uma concessão,
que demanda de todos união,
dada a magnitude desses eventos.
Muitas vidas foram embaralhadas
e certezas de antes agora dão em nada.
Muitos corações estarão condoídos,
e os ânimos de todos estarão moídos.
Quando o fenômeno é de grande termo,
não há ambiente para sentir dó de si mesmo.
É uma lição de abismo onde se percebe tão minúsculo,
cuja força não se pode contrapor com os músculos.
A vida acaba vencendo,
seja pela teimosia ou submissão.
Fatos novos e descobertas vão acontecendo
na vida daqueles que encaram nisso uma missão.
Na preparação para o próximo evento,
pode-se até tentar um certo aprovisionamento,
No entanto, tudo será sempre um desafio
de um esforço que pode durar anos a fio.
[BSB – 12/03/2011 (Lab. Sabin)]
Geraldo José de Almeida - Poeta e Historiador
vai muito além de qualquer imaginação.
Qualquer imagem é mais do que eloquente
e o assombro é total perante tal demonstração
De uma tsunami, nada está salvo.
Ela não tem necessidade de alvo.
Não há uma contra-força que a enfrente;
nem mesmo os delírios de uma mente.
A força sísmica que se repete com frequência
não vê obstáculos que venham a lhe fazer frente.
Resta apenas amenizar suas consequências
Expondo, assim, nossa fragilidade inteiramente.
Ondas indomáveis e gigantescas
brincam com navios como se fossem brinquedos.
É uma visão pavorosa e dantesca
encontrar-se no meio deste enredo.
A onda... Como evitá-la?
Existe forma de denominá-la?
Como poderia classificá-la?
Haveria alguma forma de amainá-la?
A água deixa de ser líquida e vira um muro gigantesco.
Parece que com as outras catástrofes não tem parentesco.
Só o medo mobiliza nesta situação,
e voltar ao normal passa a constituir-se em uma obsessão.
É possível desvendá-la, conhecê-la,
porém, não há como mudá-la.
Não há como puni-la, convencê-la.
Resta somente aceitá-la.
Não há sorrisos em sua ação.
Tudo é monstruoso.
Seu poder é fabuloso,
despertando medo e comoção.
Ultrapassa qualquer expectativa.
Vai muito além de nossa capacidade previsiva.
Os litorâneos vivem o temor de que um dia chegará,
sem avisar, sem pedir licença ou alvará.
A razão a explica conformada,
pouco importa se de forma real ou deformada.
Nem adianta estar preparado,
porque, na hora, algo pode dar errado.
Tudo isso ultrapassa a razão.
Explicar não basta.
Ela tudo devasta,
no caminho de seu arrastão.
Diante dessa demonstração colossal,
o sofrimento é apenas um componente da paisagem.
Tudo é destruído com extrema voragem,
diante de sua vazão descomunal.
Não há como construir o solo onde se pisa
Não há firmeza no solo que ela visa.
Parece que vivemos em uma nau instável.
Tudo aos nossos pés é mutável
Dor não combina com revolta nesses momentos.
Só o fato de estar vivo já é uma concessão,
que demanda de todos união,
dada a magnitude desses eventos.
Muitas vidas foram embaralhadas
e certezas de antes agora dão em nada.
Muitos corações estarão condoídos,
e os ânimos de todos estarão moídos.
Quando o fenômeno é de grande termo,
não há ambiente para sentir dó de si mesmo.
É uma lição de abismo onde se percebe tão minúsculo,
cuja força não se pode contrapor com os músculos.
A vida acaba vencendo,
seja pela teimosia ou submissão.
Fatos novos e descobertas vão acontecendo
na vida daqueles que encaram nisso uma missão.
Na preparação para o próximo evento,
pode-se até tentar um certo aprovisionamento,
No entanto, tudo será sempre um desafio
de um esforço que pode durar anos a fio.
[BSB – 12/03/2011 (Lab. Sabin)]
Geraldo José de Almeida - Poeta e Historiador
sexta-feira, 29 de abril de 2011
POR UM 1º DE MAIO FESTIVO POR UM 1º DE MAIO POLÍTICO-PEDAGÓGICO
Há quase duas semanas, venho tentando refletir sobre algumas temáticas que me inquietam.
Primeiro, pensei em escrever sobre trabalho, o tema está presente nas disciplinas que ministro na licenciatura. Depois, tentei iniciar um texto falando sobre o 1º de maio em Mato Grosso. Por diversas vezes iniciei, parei, deletei e, eis que dois fatos me instigaram a concluir essa digressão: o primeiro foi o artigo do jornalista Kleber Lima dessa semana – Tempo alvissareiro – e o segundo, a paralisação e manifestação dos servidores públicos federais ocorrida nesta quinta-feira (28 de abril), que ganhou as ruas de Cuiabá.
Minha intenção é ponderar sobre os temas que são abordados pelo jornalista e que já me intrigavam desde que vi as primeiras chamadas, na TV, para as comemorações do 1º de maio – dia do trabalhador – no estado.
Quando li seu artigo, imediatamente me lancei à busca da obra Teoria dos movimentos sociais – Paradigmas clássicos e contemporâneos – de Maria da Glória Gohn que sabia estar perdida em minha estante. Estou relendo para retomar algumas contribuições, uma vez que a leitura inicial ocorreu quase 10 anos atrás. De toda forma, não divirjo de que as instituições sociais estão em transformação. Logo, compreendo, não é uma “nova sociedade civil que emerge no planeta”, mas sim, uma que se transforma com características diferentes da “sociedade civil tal qual a conhecemos”, assumindo novas formas de ação e vivência em decorrência de necessidades que são do nosso tempo, do nosso momento histórico.
Concordo também que, em se tratando do movimento sindical em geral e de Mato Grosso, muita coisa mudou nos últimos 40 anos. Isso porque, segundo Ricardo Antunes, a globalização, a reestruturação produtiva e a crise que o movimento operário enfrenta desde a década de 1970, têm grande intensidade e atingiu “a materialidade e a objetividade do ser-que-vive-do-trabalho” sua “consciência de classe, afetando seus organismos de representação, dos quais os sindicatos e os partidos são expressão”.
Ainda que nos últimos 08 anos, após uma intensa ofensiva neoliberal, os trabalhadores tenham aberto um período de maior valorização do trabalho e do trabalhador, é certo que o neoliberalismo não foi derrotado. Ele ainda vive e aspira um retorno triunfal. E eis onde reside outra preocupação: assim como o governo Lula, o da presidente Dilma também é um governo de disputas entre as forças. Vencerá essa parada, quem tiver maior poder de mobilização.
Infelizmente, parece-me que nesse primeiro momento, não são os trabalhadores quem tem levado a melhor: o governo cortou 50 bilhões de reais do orçamento; de novo assistimos a pressão por conta da volta da inflação, das altas taxas de juros, do ajuste fiscal; projetos que flexibilizam conquistas e privatizam, gradativamente, a educação e a saúde voltam à pauta. Políticas sociais são secundarizadas em detrimento da política econômica. No plano estadual, a lógica se repete.
Na era de grandes avanços tecnológicos é natural que a criatividade também precise ser reinventada para tocar as “mentes e os corações” dos brasileiros, dos trabalhadores. Não sou, absolutamente, contra eventos de massa, que mobilizem milhares e milhares de pessoas, que tragam alegria, festa, diversão e, porque não, prêmios!
O que chama atenção, porém, nas atividades convocadas para o 1º de maio no Mato Grosso é o fato das entidades, diga-se as Centrais Sindicais, abdicarem de, nesse processo, tratar da elevação do nível da consciência política com um caráter político-pedagógico, “inserindo as lutas que nascem espontaneamente num direcionamento revolucionário que capte a totalidade das relações sociais e busque a sua superação”, conforme abordado por Lênin e outros.
Tive o cuidado de buscar nos sítios de todas as Centrais no estado (ou dos sindicatos ligados a elas); ouvir as entrevistas concedidas pelos dirigentes, assistir as chamada na TV, buscar panfletos (in)formativos que cumpririam esse papel, mas, nada encontrei além do convite para as atividades com uma nota de roda-pé (as vezes nem isso, como no espaço publicitário do jornal A Gazeta).
Outra Central, que não integra o pool de entidades promotoras do show, transferiu sua comemoração para o interior do estado – não que o interior não o mereça, mas é na capital que o protagonismo dos trabalhadores ganha visibilidade.
Penso ainda, que às vésperas do 1º de maio, as Centrais, todas elas, perderam uma oportunidade impar de utilizarem as diversas manifestações que ocorreram no estado para imprimirem esse caráter político-pedagógico ao qual me refiro, uma vez que, se ausentaram das mesmas: os professores da rede pública estadual paralisaram por 01 dia; outros segmentos estaduais realizaram atividades específicas e, inclusive, fecharam acordos coletivos; servidores da saúde municipal pressionaram vereadores e ocuparam a prefeitura; servidores federais paralisaram, o IFMT e UFMT realizaram a maior manifestação pública de rua ocorrida nos últimos 08 anos (salvo engano), por servidores federais contra políticas conservadoras e neoliberais.
Por fim, penso que a lição desse 1º de maio que deve ficar, para todos os trabalhadores e dirigentes de Mato Grosso é que, buscar alternativas criativas de mobilização é importante, mas de nada adiantará se não ocorrer, concomitante e continuamente, um processo de conscientização, sob pena de cair no obscurantismo.
Marilane Costa – Mestre em Educação; Professora do IFMT – Integrante do Grupo de Pesquisas “As Vicissitudes da Sociedade Brasileira” (IFMT/ UFMT/ UNEMAT); Membro da Direção Estadual do PCdoB.
Primeiro, pensei em escrever sobre trabalho, o tema está presente nas disciplinas que ministro na licenciatura. Depois, tentei iniciar um texto falando sobre o 1º de maio em Mato Grosso. Por diversas vezes iniciei, parei, deletei e, eis que dois fatos me instigaram a concluir essa digressão: o primeiro foi o artigo do jornalista Kleber Lima dessa semana – Tempo alvissareiro – e o segundo, a paralisação e manifestação dos servidores públicos federais ocorrida nesta quinta-feira (28 de abril), que ganhou as ruas de Cuiabá.
Minha intenção é ponderar sobre os temas que são abordados pelo jornalista e que já me intrigavam desde que vi as primeiras chamadas, na TV, para as comemorações do 1º de maio – dia do trabalhador – no estado.
Quando li seu artigo, imediatamente me lancei à busca da obra Teoria dos movimentos sociais – Paradigmas clássicos e contemporâneos – de Maria da Glória Gohn que sabia estar perdida em minha estante. Estou relendo para retomar algumas contribuições, uma vez que a leitura inicial ocorreu quase 10 anos atrás. De toda forma, não divirjo de que as instituições sociais estão em transformação. Logo, compreendo, não é uma “nova sociedade civil que emerge no planeta”, mas sim, uma que se transforma com características diferentes da “sociedade civil tal qual a conhecemos”, assumindo novas formas de ação e vivência em decorrência de necessidades que são do nosso tempo, do nosso momento histórico.
Concordo também que, em se tratando do movimento sindical em geral e de Mato Grosso, muita coisa mudou nos últimos 40 anos. Isso porque, segundo Ricardo Antunes, a globalização, a reestruturação produtiva e a crise que o movimento operário enfrenta desde a década de 1970, têm grande intensidade e atingiu “a materialidade e a objetividade do ser-que-vive-do-trabalho” sua “consciência de classe, afetando seus organismos de representação, dos quais os sindicatos e os partidos são expressão”.
Ainda que nos últimos 08 anos, após uma intensa ofensiva neoliberal, os trabalhadores tenham aberto um período de maior valorização do trabalho e do trabalhador, é certo que o neoliberalismo não foi derrotado. Ele ainda vive e aspira um retorno triunfal. E eis onde reside outra preocupação: assim como o governo Lula, o da presidente Dilma também é um governo de disputas entre as forças. Vencerá essa parada, quem tiver maior poder de mobilização.
Infelizmente, parece-me que nesse primeiro momento, não são os trabalhadores quem tem levado a melhor: o governo cortou 50 bilhões de reais do orçamento; de novo assistimos a pressão por conta da volta da inflação, das altas taxas de juros, do ajuste fiscal; projetos que flexibilizam conquistas e privatizam, gradativamente, a educação e a saúde voltam à pauta. Políticas sociais são secundarizadas em detrimento da política econômica. No plano estadual, a lógica se repete.
Na era de grandes avanços tecnológicos é natural que a criatividade também precise ser reinventada para tocar as “mentes e os corações” dos brasileiros, dos trabalhadores. Não sou, absolutamente, contra eventos de massa, que mobilizem milhares e milhares de pessoas, que tragam alegria, festa, diversão e, porque não, prêmios!
O que chama atenção, porém, nas atividades convocadas para o 1º de maio no Mato Grosso é o fato das entidades, diga-se as Centrais Sindicais, abdicarem de, nesse processo, tratar da elevação do nível da consciência política com um caráter político-pedagógico, “inserindo as lutas que nascem espontaneamente num direcionamento revolucionário que capte a totalidade das relações sociais e busque a sua superação”, conforme abordado por Lênin e outros.
Tive o cuidado de buscar nos sítios de todas as Centrais no estado (ou dos sindicatos ligados a elas); ouvir as entrevistas concedidas pelos dirigentes, assistir as chamada na TV, buscar panfletos (in)formativos que cumpririam esse papel, mas, nada encontrei além do convite para as atividades com uma nota de roda-pé (as vezes nem isso, como no espaço publicitário do jornal A Gazeta).
Outra Central, que não integra o pool de entidades promotoras do show, transferiu sua comemoração para o interior do estado – não que o interior não o mereça, mas é na capital que o protagonismo dos trabalhadores ganha visibilidade.
Penso ainda, que às vésperas do 1º de maio, as Centrais, todas elas, perderam uma oportunidade impar de utilizarem as diversas manifestações que ocorreram no estado para imprimirem esse caráter político-pedagógico ao qual me refiro, uma vez que, se ausentaram das mesmas: os professores da rede pública estadual paralisaram por 01 dia; outros segmentos estaduais realizaram atividades específicas e, inclusive, fecharam acordos coletivos; servidores da saúde municipal pressionaram vereadores e ocuparam a prefeitura; servidores federais paralisaram, o IFMT e UFMT realizaram a maior manifestação pública de rua ocorrida nos últimos 08 anos (salvo engano), por servidores federais contra políticas conservadoras e neoliberais.
Por fim, penso que a lição desse 1º de maio que deve ficar, para todos os trabalhadores e dirigentes de Mato Grosso é que, buscar alternativas criativas de mobilização é importante, mas de nada adiantará se não ocorrer, concomitante e continuamente, um processo de conscientização, sob pena de cair no obscurantismo.
Marilane Costa – Mestre em Educação; Professora do IFMT – Integrante do Grupo de Pesquisas “As Vicissitudes da Sociedade Brasileira” (IFMT/ UFMT/ UNEMAT); Membro da Direção Estadual do PCdoB.
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